Sumário da Reunião extrarodinária do Fórum Empresarial Brasil sobre os reflexos e conseqüências
dos atentados de 11 de setembro em New York e Washington

Alexandre Barros

Analisando as mudanças em curso desde o atentado, tenho usado muito o que diz Thomas Kuhn em seu livro "A Estrutura das Revoluções Científicas". Segundo ele, a ciência progride através de revoluções, e, ao longo dos tempos, a humanidade tem vivido dentro de diferentes paradigmas que, um dia, são mudados e tornam obsoletas hoje as verdades absolutas de ontem. Um dos melhores exemplos foi a queda do arcabouço científico que sustentava que o sol girava em volta da terra. Toda a ciência da época demonstrava aquela verdade, e um dia se provou que era uma ciência perfeitamente coerente, só que baseada em uma premissa falsa.

A ameaça vem de fora, temos que nos proteger contra grandes armas. Essas eram as premissas da defesa americana, seu paradigma.

Há uns dois anos foi divulgado o relatório de uma comissão bipartidária, patrocinada pelo Departamento de Defesa, sobre as ameaças aos Estados Unidos nos próximos 25 anos - pois entre o desenho de um porta-aviões ou de um jato, e sua concretização como arma, decorrem 10 ou15 anos.

Para uma reunião da qual participei, foram convidados 25 especialistas em questões internacionais para comentar e criticar a versão preliminar do relatório. Nada parecido com o que aconteceu nesse atentado estava previsto ali. E, possívelmente, se alguém tivesse levantado essa hipótese, ela teria que ser descartada, pois não teria como ser encaixada no paradigma.

O que houve agora, tomando emprestada de Thomas Kuhn a noção de revolução científica, foi uma invenção: alguém descobriu que existem disponíveis, no mundo inteiro, milhares de bombas poderosíssimas, com capacidade de autopropulsão, carregando 20 toneladas de explosivos, e que, com alguma competência, podem ser manejadas e lançadas contra qualquer alvo, causando enormes danos.

Mudou o paradigma: a ameaça viria de fora, e veio de dentro. Um avião seqüestrado não negociou nem pousou, virou uma bomba. É importante lembrar que, numa tarde comum, há cerca de 7.700 aviões voando nos Estados Unidos, e 5 mil de manhã. O potencial de loucuras possíveis é muito grande.

Por volta de 1985, na reunião anual da Association of Political Risk Analysts, um dos palestrantes falou sobre os riscos do fundamentalismo islâmico militante e de possíveis ações terroristas. Era um público de umas 150 pessoas, professores, analistas financeiros, agentes da CIA aposentados, e todos os comentários que ouvi consideraram o assunto absolutamente irrelevante.

Em 1994, o governo francês (isto saiu no Estado de São Paulo na segunda semana de setembro) avisou o governo americano de que um grupo terrorista havia seqüestrado um avião em Argel para chocá-lo contra a Torre Eiffel. Como calcularam mal o combustível, tiveram que parar para reabastecer, e aí terminou a história. Apesar do aviso francês, os serviços secretos americanos não investiram na questão, possivelmente, porque não se encaixava no paradigma, naquilo que o grupo de especialistas considerava aceitável como hipótese.

Ninguém pode saber o que irá acontecer no mundo nos próximos meses. Haverá, seguramente, um aumento de gastos governamentais com defesa, tanto nos Estados Unidos quanto nos outros países. Isso vai ser uma alavanca muito importante para uma indústria que estava meio adormecida. No entanto, é importante olhar o passado e lembrar que, na época da Guerra do Golfo, muitos compraram ações de empresas de material de defesa e nenhuma delas subiu significativamente, algumas até caíram.

Embora seja difícil prever o futuro, o passado ensina que, apesar de a situação poder causar alguma reativação da economia, a experiência americana de guerras longas é que inflação vem junto, e essa palavra é um anátema para os americanos, pelo menos, até agora. Daí que não haja nenhum interesse da parte dos Estados Unidos em entrar numa guerra como a do Vietnam, que durou dez anos e terminou em derrota.

Ninguém esperava muito do Bush. Ninguém sabia muito bem o que estava acontecendo na política doméstica. Na área internacional, a atitude do governo americano com relação ao resto do mundo vinha sendo basicamente arrogante e auto-suficiente, como se viu com a revogação do protocolo de Kyoto. O presidente estava sendo tratado com uma certa condescendência por vários chefes de estado. Nesse momento, para montar a aliança de que precisa para levar adiante seus planos, ele terá que mudar em vários aspectos. Não que esteja perdendo poder, mas terá que mudar.

Uma aliança como a da guerra do Golfo será insuficiente. Os possíveis aliados de hoje estão cautelosos, pedem um pouco mais de evidências. Um fato tranqüilizante é que a máquina governamental americana tem um sistema de checks and balances suficientemente bom para impedir que se cometam desatinos. Os profissionais têm consciência do tamanho e do poder daquela máquina de guerra.

Uma questão importante, que deverá orientar a decisão de muitos governos no futuro próximo, é: o que ganharão os governos e as elites dos países que vão mudar de postura frente aos Estados Unidos, dando seu apoio à nova política externa americana?

Problemas inevitáveis decorrerão do fato de que os Estados Unidos vão tentar exercer uma extraterritorialidade para combater o terrorismo, atribuindo-se o direito de caçar pessoas em território estrangeiro.

Já foi aprovado em pelo menos um nível de governo americano que agentes podem caçar e assassinar pessoas, mas ainda é preciso ver o que os outros países têm a dizer. Isso vai demandar mais inteligência e policiamento em muitos países, o que traz péssimas memórias para aqueles da América do Sul e da América Central que tiveram governos militares até mais ou menos recentemente.

O americano se preocupa muitíssimo com a redução de seus direitos civis, e já está incomodado com a presença da polícia militar nas ruas, com a possibilidade de solicitação de identificação, algo que praticamente não existia no país.

O problema americano agora é saber que política externa vai adotar.

Deverá aumentar a pressão americana para que os países assumam um alinhamento explícito com os Estados Unidos. A primeira conseqüência será a diminuição da tolerância com retóricas e políticas antiamericanas. Vai haver uma demanda por uma clara definição, não se aceitando mais ambigüidades políticas como o governo Chavez na Venezuela, ou a convivência do governo colombiano com um movimento terrorista que tem endereço conhecido: pode-se marcar um encontro com a guerrilha colombiana sem grandes dificuldades.

No caso do Brasil, não há dúvida de que os Estados Unidos demandarão uma política externa mais alinhada. O foco das pressões vai ser o Itamaraty, que, dentro da burocracia, é o campeão da retórica ambígua a respeito das relações com os Estados Unidos, capitaneando políticas antiamericanas em nome do desenvolvimento brasileiro. A agressividade dos Estados Unidos deverá se reduzir, mas muitas transações econômicas entre eles e o Brasil, que não tinham condicionantes políticos, passarão a ter.

Comentário de um participante:

A insegurança do Brasil nesse novo mundo está relacionada com o sistema financeiro: talvez sejamos a capital mundial de lavagem de dinheiro. Embora não haja companhias off-shore aqui, grande parte da movimentação econômica do país, por motivos históricos, tributários, políticos, seja o que for, se dá de maneira informal. Certamente haverá pressão do Treasury, do Federal Reserve e de todas as outras instituições semelhantes para que isso seja mudado.

No primeiro momento, o investimento estrangeiro no Brasil cairá. Com isso, crescerão o desemprego e o risco de recessão. Já há uma desvalorização concreta do real, que pode continuar, afetando a sucessão. Se a situação ficar mais séria, o Congresso pode passar a cobrar mais caro pelas decisões, e o governo pode perder mais apoio.

Na visão de uma nova política externa americana, talvez um candidato do governo fosse considerado menos radical que um governo do PT. Mas ninguém sabe o que os eleitores brasileiros estão pensando. Pode ser que digam: esta é a hora de dar uma boa lição nos Estados Unidos e eleger um presidente menos americanista.

Em análise política, é importante e instrutivo fazer perguntas que ninguém quer ouvir:

-E se não tiverem sido os fundamentalistas islâmicos? Pensou-se que haviam sido eles em Oklahoma, e foi um fanático americano.

-E se tiver havido a participação de terroristas americanos, junto com os islâmicos?

-E quantas foram as vítimas dos atentados? A imprensa mostrou pouquíssimas. Pode ser que o número tenha sido muito maior do que se pensa, e o governo tenha conseguido um acordo com a mídia para não divulgar números - talvez como uma maneira de evitar atos incontroláveis de represália dentro dos Estados Unidos, como já estão acontecendo. O governo tem a maior preocupação de evitar que a política americana seja percebida como uma oposição a pessoas muçulmanas, árabes, etc,

Todos os problemas que os Estados Unidos e o mundo vinham enfrentando até agosto, tudo terá que ser revisto. A relevância relativa de cada questão terá que ser reavaliada, algumas delas desaparecendo do cenário e outras, até então impensáveis, ganhando prioridade dentro do novo paradigma.

Primeiro Palestrante

A situação de segurança no mundo, para os governos, para as empresas, para os cidadãos,
é de extrema fluidez agora, e estará mudando radicalmente nos próximos tempos, ainda não sabemos em que direção.

Vamos ter que voltar para os fundamentos da nossa sociedade. Vamos ter que questionar tudo que fizemos ate agora, analisar a maneira como obtemos e processamos informações, com quem trabalhamos e fazemos negócio. Sigilo bancário é coisa do passado: não haverá mais facilidade de se montar empresas off-shore sem que haja um monitoramento pela CIA, pelo FBI, etc.

Dois ou três meses antes dos eventos nos Estados Unidos, a FARC-Forças Armadas Revolucionárias Colombianas transferiu seis milhões de dólares para um grupo supostamente associado a Bin Laden.

Não faz muito tempo, alguns membros do Exército Revolucionário Republicano da Irlanda foram presos na Colômbia oferecendo ajuda técnica e dando aulas para o pessoal da FARC, porque o IRA, sem muitas condições políticas para se manter, passou a trabalhar com narcotráfico.

Bin Laden, ou grupos supostamente associados a ele, estavam selling short nas bolsas de Chipre, Frankfurt, Roma e nos Estados Unidos antes do atentado.

A embaixada do Iraque, uns dias antes do atentado, aumentou o seguro do prédio de sua embaixada em Washington para um bilhão de dólares (não vale 500 mil). Por coincidência, a embaixada fica exatamente na rota de vôo do avião que ia bater na Casa Branca.

Essa rede de conexões é extremamente sofisticada. O atentado em si foi uma ação de baixa tecnologia: transformar um avião em um míssil e jogá-lo contra uma parede, matando todos os passageiros e 20 mil pessoas nos prédios.

Mas o que está por trás dessas ações é algo muito sofisticado e muito extenso. Bin Laden selling short na bolsa americana não é exatamente a ação de um terrorista de pescoço grosso conspirando com um bando de ex-militares.

Na verdade, há conexões entre esses grupos que, às vezes, não têm nada a ver com política, mas decorrem apenas de conveniências: você lava dinheiro para mim e eu forneço narcóticos para a máfia francesa, italiana, chinesa, o IRA, a FARC.

Comentário de Alexandre Barros:

Foi mencionado que o IRA está mudando de função: na medida em que não pode mais fazer terrorismo na Inglaterra, ele começa a se oferecer como uma consultoria de terrorismo, As organizações dificilmente desaparecem, elas mudam de função. É muito importante observar metamorfoses que estejam acontecendo, como as mencionadas, e que não são aparentes.

Em termos de respostas simplistas e fáceis, haverá, de fato, uma retaliação americana contra alguns grupos conhecidos. Não penso que tal retaliação tenha nenhum impacto sobre a operação desses grupos, será mais para o público ver, pois há muita pressão em cima do Bush. Não gosto de ver o Bush exigindo que o Afeganistão entregue Bin Laden: ele não é o problema, não é um homem só que está coordenando tudo isso.

Haverá uma contra-reação dos terroristas, que, neste momento, não é possível avaliar. Vai morrer mais gente, talvez na Inglaterra, talvez na França, talvez na Alemanha, talvez no Brasil e, com certeza, nos Estados Unidos, em algumas outras áreas.

Os Estados Unidos não são um país de segurança, o americano rejeita certos aspectos de segurança que limitam sua liberdade, seu direito de ir e vir. Procedimentos de segurança nos aeroportos são rejeitados porque os executivos são impacientes, não toleram nada que signifique atrasos em seus negócios. Vai ser difícil, daqui a dois ou três meses, manter os procedimentos de segurança atuais. E isso funciona a favor dos terroristas.

Bilhões de dólares de investimentos desapareceram nos atentados, e tudo será pago pelas companhias de seguro. Calcula-se que, até agora, as companhias de aviação perderam 15 bilhões de dólares. O governo está colocando este valor à disposição delas, mas os prejuízos continuarão a crescer. Os vôos deverão ter uma redução de 20%. A Continental demitiu 12 mil, a United vai demitir 20 mil. São frentes de trabalho que, pelo menos temporariamente, vão desaparecer.

No curto prazo, os juros vão diminuir porque haverá uma enorme oferta monetária para a reconstrução. O governo vai empregar mais, vai aumentar os gastos, e os juros vão subir. Os Estados Unidos são tomadores líquidos no mercado internacional: ou fazem papel moeda no país, correndo o risco de inflação, ou tomam emprestado do resto do mundo, como vêm fazendo há muito tempo. O país precisa de 55 bilhões para fechar sua conta corrente.

No Brasil, há pressão sobre a taxa de câmbio, e haverá mais. Será que o governo vai impedir a saída de capitais, ou vai permitir e tentar intervir no mercado? É possível que haja uma recessão mundial no curto prazo, talvez não no longo, na medida em que se começar a gastar dinheiro em segurança. Pode aumentar a demanda por serviços de segurança no mercado. No entanto, é preciso considerar que esses não são serviços produtivos, são de reação. Além de não necessariamente aumentarem a produtividade, alguns vão até fazer com que diminua. Segurança é um gasto na empresa, não é um centro de lucro, não gera nada.

Se os Estados Unidos tivessem implementado os planos de segurança nos aeroportos, tal como proposto em 1995/97, teriam gastado 10 bilhões de dólares ao longo de cinco ou seis anos. Perderam mais que isso em um dia.

Na área política, não se sabe se Bush é o líder adequado para este momento. O pai dele certamente tem muita experiência internacional, mas ele não. A idéia de que se possa bombardear o Afeganistão até deixá-lo na Idade da Pedra é ridícula, pois ele já está na Idade da Pedra.

O que os russos não destruíram, já não existia. A infra-estrutura é mínima, é um dos países mais pobres do mundo. O talibã e os terroristas se instalaram no Afeganistão por razões óbvias: são um país muito fácil de manipular, é fácil esconder-se lá, e seu povo tem todas as condições de viver nas montanhas comendo pedras três vezes por dia.

Parece que Bush tem necessidade de agir para atender à demanda do público americano, mas é Collin Powell quem está passando a mensagem correta: nossa contra-ofensiva vai levar anos, não vai ser fácil. É uma operação policial, temos que descobrir cada um desses sujeitos e eliminar um a um.

Comentário de um participante:

Menos de 24 horas após o atentado, o presidente Bush deu a resposta mais forte possível nas circunstâncias, algo que daqui a gerações será estudado nas escolas: ele criou uma nova doutrina de direito internacional ao declarar que qualquer país que dê abrigo a terroristas será considerado terrorista. Os dias se passam e ninguém ainda contestou isso: a doutrina vai se consolidando.

Os Estados Unidos vão se retrair um pouco com relação a envolvimentos internacionais. O público americano vai demandar que o governo não se preocupe tanto com questões internacionais. Investimentos externos vão ser questionados, principalmente no Oriente Médio.

Os Estados Unidos são o maior consumidor de petróleo. O preço vai subir. No caso de um ataque americano, particularmente se forem indiscriminados, a irmandade muçulmana vai se juntar, pois não se pode atacar um sem atacar os outros.

O americano vai se cansar muito rápido dessa situação, e vai querer que se resolva rápido a questão. Deve-se notar também o número de membros do Congresso americano que têm investimentos em petróleo no Kuwait, Eles têm todo interesse em querer resolver a situação politicamente e, além disso, não comprometer os negócios.
 
Não é possível traçar um quadro linear da situação atual e do futuro próximo. Com relação ao mercado, fico com JP Morgan: há muitos anos, perguntaram a ele, que era um grande investidor no mercado de ações, como o mercado iria se comportar num determinado dia, e ele não vacilou: O mercado oscilará. Eu digo o mesmo: o mercado oscilará, e ninguém pode dizer mais do que isso. Tudo mudará, e ainda não podemos prever como nem em que direção.
 

Segundo Palestrante

Executivos diferenciados: é disso que vamos estar precisando na comunidade empresarial. No curto prazo, vamos estar lidando com uma realidade muito diferente daquela com que temos lidado historicamente.

O que caracteriza este momento?

Alta volatilidade.

Mercados e tomadores de decisão nervosos.

Momento indefinido.

Não se sabe qual vai ser a seqüência em termos de segurança, qual a linha que será seguida.

Temos um novo paradigma nessa área, e ele está mais para Internet do que para grandes centrais de processamento de dados. No entanto, todas as organizações que lidam com segurança têm no seu software, no seu modo de pensar, o paradigma antigo.

A situação está sendo definida por alguns interlocutores americanos quase como uma guerra sagrada do outro lado, No entanto, o que menos há aí é o sagrado. Se os preceitos islâmicos estivessem realmente sendo defendidos, se fosse uma guerra contra a liberdade sexual, o uso de bebida, não seriam os Estados Unidos o alvo, mas o Brasil e seu sambódromo. Não é esta a causa. É, efetivamente, uma guerra política, não religiosa. Alguns religiosos estão sendo usados como instrumentos.

Estamos vendo ações que se desenrolam dentro de uma lógica de rede, que é diferente da lógica de processamento central, da lógica do estado-nação.

Todas as nossas instituições e todos os nossos líderes foram treinados para pensar dentro da lógica do estado-nação, e não dentro da lógica da internet, ou seu equivalente nessa luta política e militar. Ainda não conhecemos essa nova lógica.

Assim como tivemos que reaprender a pensar dentro da lógica da nova economia, que trazia algumas regras contrárias à forma de pensar da antiga economia, também teremos que fazer o mesmo em termos de segurança.

Que lógica usarão os que estão para deflagrar as próximas ações, os americanos?

Uma invasão do Afeganistão para dar uma resposta rápida ao publico americano, que está pressionando por alguma coisa magnífica a ser feita para converter a energia da raiva que sente dentro de si?

Ou algo comedido, conseqüente, e, portanto, frustrante para o eleitorado americano? É um eleitorado volátil, que não claramente escolheu quem o lidera e que, durante a guerra do Golfo, deu 66% de aprovação ao presidente Bush e poucos meses depois o derrotou nas eleições.

Estamos em uma situação indefinida, imprevisível, e ainda não conhecemos as variáveis que integram o novo paradigma.

O principal fator determinante, em termos econômicos, que definirá para onde vão nossos negócios, será o consumidor americano, principalmente, e o consumidor brasileiro, como reflexo.

Que nível de confiança tem esse consumidor em retornar ao consumo, em que nível, em que linhas de produtos? Já houve um retorno substancial dos consumidores aos shoppings. Não em Nova York, não em alguns centros de grande atração como Disney, mas, no resto do país, o clima tende a voltar à normalidade.

Mas há também o problema de confiança do consumidor em termos de emprego. Só a Boeing está dispensando 20 mil pessoas, e cada uma dessas representa outras 15 que serão desempregadas. Pode haver uma queda de renda e de consumo, mas também pode não haver, devido à injeção fiscal e se os gastos governamentais absorverem essa mão de obra. Não dá para prever, mas essas são as variáveis que temos que acompanhar se quisermos fazer alguma previsão.

Nos últimos anos, a economia mundial vem se ampliando rapidamente crescendo em termos de comércio internacional, especialmente de produtos de alta tecnologia, boa parte transportada por via aérea.

Embora a perturbação imediata possa ser equivalente a uma grande tempestade de neve no nordeste americano, é preciso se perguntar como ficará o processo. As empresas de courrier, por exemplo, estão tendo que abrir todos os pacotes. O comércio aéreo está limitado. Durante algum tempo, por questões de segurança no processo, aumentarão os custos de negócios envolvendo produtos transportados por via aérea.

No caso do transporte marítimo, o efeito é muito menor. E boa parte do comércio brasileiro depende mais do transporte marítimo que do aéreo.

Também deverá haver um aumento de custos no fluxo de pessoas. Deverá haver uma redução no fluxo migratório para os Estados Unidos. Estudos já mostraram que, se eles não abrissem as portas para os imigrantes, faltaria mão-de-obra no país a partir de 2004. Havia, portanto, uma necessidade de importar mão-de-obra. Se a economia desacelerar, essa demanda diminuirá. Mas, no segundo momento, quando tentarem reacelerar a economia, isso será um novo problema.

No primeiro momento, está havendo uma resposta fiscal, especialmente para ajudar as empresas aéreas ? que já estavam em péssima situação, desatualizadas, quase todas quebradas. Agora vão ter uma sobrevida, porque o governo precisa ajudá-las. Temos que pensar o que acontecerá com as brasileiras.

Além da resposta fiscal, está havendo um esforço monetário, coordenado com bancos centrais de diversos países, uma disponibilização monetária e uma baixa significativa de juros.

Vai haver uma busca de maior segurança nos investimentos, e os países emergentes vão ter problemas. Um estudo que está sendo divulgado hoje mostra que, como conseqüência, as políticas públicas do governo brasileiro deverão ser muito mais nacionalistas do que atualmente.

As empresas terão que se preocupar com seus recursos humanos: todas as equipes estão inseguras. Se os líderes não assumirem o comando, não derem uma direção, a tendência é que caia a produtividade. Quando isso se agrega a nível macro, a economia se torna menos produtiva.

Há outros fatores que vão afetar os econômicos.

Qual será o posicionamento do governo brasileiro? Até agora, prevalece a ambigüidade, o que pode ser muito perigoso dentro dessa nova lógica. Talvez devido à recente experiência de grande sofrimento sob governos militares, o governo brasileiro tende a considerar que medidas de segurança afetam as liberdades pessoais, e não tem dado a devida atenção a essa questão.

Dentro da lógica de rede, é quase certo que existam células desses grupos no Brasil. Elas não aparecem da noite para o dia, mas são desenvolvidas ao longo de muito tempo e ficam esperando a oportunidade propícia para agir. É por isso que a estrutura precisa de muito dinheiro: não se trata de financiar um grupo por um tempo limitado e com um objetivo definido, mas de um exercício de longo prazo, com ações diversas em diversos lugares. Não é dentro do MST, como dizem alguns. Talvez a Colômbia tenha alguma ligação com ele, mas é muito mais perto de casa do que estamos imaginando.

Comentário:

Com relação a esse último ponto, somente uma ação radical de um grupo identificado com posições contrárias ao mainstream poderia levantar questões sobre as associações do PT com o MST, e deste com grupos radicais na Colômbia.  Não que o PT esteja ligado a esses grupos, mas posições radicais, contra o mainstream, vão ser mais questionadas a partir de agora.

Num momento como este, ou o país é parte da crise, ou é parte da solução. O Brasil não é parte da crise - e talvez nem venha a ser: isso não seria do interesses dessas células, pois traria forte apoio para o país. A posição ambígua do governo brasileiro parece indicar que o Brasil tampouco vai se colocar como parte da solução. Sua primeira proposta, na tentativa de ser parte da solução, foi de revigorar um acordo muito antigo, o Tratado do Rio, da OEA, de 1947, cuja lógica é exatamente a dos estados-nações, um em defesa do outro, quando não é esta a questão em jogo.

Outro aspecto a levar em consideração é que a opinião da elite brasileira tem sido extremamente antiamericana. Os analistas tendem a ver a situação apenas como um reflexo da prepotência americana. Falta uma frieza de análise, e prepondera a projeção de sentimentos antiamericanos que podem ser válidos, mas não são base adequada para analisar uma situação com a seriedade desta que se apresenta. Lamento profundamente essa postura da elite brasileira, pois ela está usando a oportunidade para, mais uma vez, colocar a culpa nos outros, em vez de resolver os problemas do país.

Quando temos muita volatilidade, o que temos que fazer, usando termos náuticos, é tirar todas as velas excedentes e trabalhar com a vela principal, no menor espaço possível. Organizacionalmente, isto pode ser traduzido como: cintos apertados, prontos para um mar muito turbulento. Num trânsito complicado, é muito mais fácil se movimentar numa moto do que num caminhão. Flexibilidade é um fator básico nesse momento.

A imprevisibilidade requer um monitoramento muito mais constante do meio-ambiente e uma gestão estratégica, de forma a não comprometer o longo curso com movimentos táticos provocados por mudanças não previstas do meio-ambiente.

Comentário de um participante:

Estou me lembrando de uma frase de Alexandre Barros: nenhum político resolve hoje o problema de amanhã. Isso vem a propósito de um livro escrito por Alvin Toffler pouco depois da queda do muro de Berlim, traduzido como Guerra e Antiguerra. Nada do que aconteceu agora foi surpresa nem para Toffler nem para os especialistas em segurança. Políticas fiscais recentes, reduzindo a carga tributária sobre o cidadão americano, derivam de uma idéia  considerada equivocada por muitos de que os Estados Unidos não precisavam mais gastar com defesa depois do colapso da União Soviética. Toffler havia alertado que as necessidades de segurança eram muito maiores que antes. Os eventos recentes mostram que ele estava certo. A informação existia, mas a vontade política de se antecipar ao problema não estava presente.

Desde a queda do muro de Berlim, o sistema econômico mundial teve um crescimento explosivo, mas nele faltava uma perna, a da segurança. E esse sistema implodiu.

Agora, tudo terá que ser reestruturado, e todas as atividades econômicas terão que levar em conta as questões de segurança. O planejamento urbano, por exemplo, terá que reconsiderar a idéia de reconstruir o WTC, pois qualquer WTC será sempre um enorme atrativo para atos terroristas. Nem precisa ser um avião: concentrar em dois quarteirões o trânsito de 150 mil pessoas por dia, pessoas competentes e influentes do mundo todo, é um risco para a segurança do planeta.

Comentário de Alexandre Barros:

Mudanças no planejamento urbano e na estrutura do trabalho certamente serão aceleradas. As tendências já vinham se manifestando há muito tempo, e agora ganharão maior ímpeto. O ataque ao WTC levará, por exemplo, à adoção de novos critérios para a instalação de empresas. Existem empresas importantes que decidiram, faz anos, que não iriam se instalar em Nova York, e preferiram munir-se de tecnologia de comunicação e continuar instaladas em pequenas cidades do interior do país. Agora em muito maior escala, essa opção deverá ser parte do novo paradigma.

Pergunta de um participante:

Em função da nova realidade mundial, do novo paradigma que vocês estão descrevendo, qual seria o perfil mais adequado para o sucessor de Fernando Henrique?

Palestrante 1:

O novo presidente terá que ter uma visão e uma experiência internacional, interação com a comunidade internacional. Que tenha condição de liderar, pois num momento de grande volatilidade, o presidente terá que exercer liderança. Não vejo essas qualidades nos políticos que aí estão. É possível que surjam outros candidatos ainda. Nossa experiência com um candidato inesperado não foi positiva, mas é possível.  Acho que nenhum dos candidatos atuais traz uma visão do futuro.

Palestrante 2:

Apesar de seu tamanho, o Brasil é um país insular em seu comportamento, parece até um Portugal. Tem enorme potencial, enorme impacto, o terceiro produtor de bebidas do mundo, um dos maiores produtores de aço, uma das ferrovias mais rentáveis e eficientes do mundo, a ferrovia do aço. Mas o país não tem uma estratégia definida. Sempre foi um país reacionário, não proativo. E isso, no mundo atual, não tem como funcionar.

A consolidação de uma postura como a da Embraer, que tem quase 50% do mercado de jatos regionais, é o que falta ao Brasil como um todo. O país tem outras áreas de competitividade, em nível mundial, que não são consolidadas. A elite não reconhece ou, se reconhece, ignora, e o processo político brasileiro é um processo de elite. O próximo presidente, portanto, deveria ser alguém que não pense em termos insulares, que não ache que o Brasil pode ser grande sem participar do resto do mundo. Não vejo ninguém, neste momento, que apresente essas condições. Talvez esse acontecimento em NY sirva para sacudir a complacência das elites brasileiras, para que percebam que o mundo é outro e que o Brasil tem um papel a cumprir nele, não pode mais manter a posição de ?nem sim nem não?.

Palestrante 1: Vamos colocar algum otimismo nesse cenário. Talvez o discurso dos candidatos esteja voltado para dentro por uma necessidade de campanha. Temos uma nova realidade externa e, naturalmente, as primeiras reações são dentro dos paradigmas tradicionais. Vamos dar um tempo para que eles reflitam e voltem com um discurso mais adequado.

O Brasil tem algumas oportunidades, nesse momento, que poderiam ser aproveitadas. Uma das questões será a dependência americana do petróleo. O Brasil é o produtor de energia renovável mais eficiente do mundo. A Califórnia terá que mudar a mistura da gasolina a partir de 2003. É uma oportunidade para o Brasil, substituir o aditivo usado hoje. E a Califórnia vai ser seguida por Nova York e mais 14 estados americanos. O Brasil pode se posicionar como parte da solução, tomando iniciativa, com ganhos econômicos, sem se subjugar à vontade política americana e nem persistir na análise corrente de que o país é uma vítima da prepotência americana ? que é o que se encontra na capa da VEJA, nos editoriais da Folha, a revista e o jornal mais lidos no país!
 

FIM do TEXTO