Alexandre Barros
Fórum Empresarial Brasil
DESTAQUES DA REUNIÃO DE 9 DE SETEMBRO DE
1998
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Nota: Partes do texto entre [[....]] são perguntas ou comentários feitos pelos participantes.
Tópicos da conversa com Paulo Kramer, analista político especializado em consultoria ao Congresso e atualmente assessor do Ministro da Justiça.
Uma boa maneira de olhar para a campanha eleitoral e tentar antecipar tendências e resultados é tomando a política como um jogo de retóricas no qual os diferentes atores tentam convencer os eleitores sobre a justeza de sua própria versão da realidade.
A campanha atual está acontecendo à sombra da crise internacional: o dia 17 de agosto, início dos programas na TV, foi o dia da queda da Rússia.
Lula tenta dramatizar a crise e estabelecer um elo entre o cenário externo e seus impactos sobre a vida do eleitor. No início da campanha, FH tentou ignorar a crise e passar uma imagem construtiva e otimista de seu próximo governo. Quando a situação se agravou, teve que falar da crise, mas evitando dar a impressão de que o discurso do governo estava sendo pautado pelo discurso da oposição.
Por enquanto, o "quanto pior, melhor" beneficia FH. As pesquisas mostram que, quanto mais grave a crise, mais pessoas acham que ele é o mais preparado para governar o país.
A imagem de FH está ligada ao Real, conforme indicam as pesquisas. Se quebrar, ele quebra .
Outro patrimônio de FH é sua previsibilidade: ele sempre agiu de acordo com a crença de que não dará sustos ao país. Se tiver que dar algum grande susto antes das eleições, esse patrimônio ficará abalado.
Lula conseguiu uma meia vitória: que o governo fosse obrigado a falar da crise. Mas ainda não conseguiu convencer de que é o mais preparado para lidar com ela.
A rejeição a Lula é um fenômeno sério e duradouro. Pesquisas do PT mostram que ele bateu no teto de sua competência, de sua capacidade de processar uma realidade cada vez mais complexa. Essa rejeição é forte tanto entre os ricos quanto entre os pobres, e se deve a dois fatores: sua falta de educação formal e o fato de ele nunca ter se proposto a investir numa verdadeira carreira administrativa, como prefeito e governador.
Do ponto de vista de sua imagem parlamentar, Lula teve um desempenho tão apagado quanto tem o Jair Menegheli hoje.
Alexandre Barros - Como não há experiência de reeleição
no Brasil, não está clara para os eleitores a distinção
entre papel de presidente e papel de candidato. Diante da crise atual,
Fernando Henrique não sabe o que fazer, que papel escolher. O resultado
disso é que ele não aparece como lider, delegando aos ministros
a
tarefa de falar para a população. No dia em que se revelou
a crise na Russia, Clinton foi falar numa escola e falou sobre a crise,
falou como presidente, ao contrário do que tem feito FH.
Com o agravamento da crise e a omissão do presidente, parece crescer o número de eleitores que não tem uma lealdade muito forte a FH e que vai votar nele por falta de opção. Como consequência, ele será um lider fraco, sem representar, efetivamente, a maioria dos eleitores. O Congresso perceberá isso, e ficará ainda mais difícil para FH contar com apoio do Legislativo.
PK - A opção da campanha de FH foi que o presidente fala da crise e o candidato fala o que fez e o que vai fazer. Quando falou sobre a crise como presidente (embora no horário gratuito ), ganhou ponto. Uma parte da coordenação da campanha então se deu conta de que talvez seja um erro esconder o presidente.
Só o desenrolar dos acontecimentos poderá mostrar qual o melhor equilíbrio entre esses papéis e qual a opção mais vantajosa eleitoralmente.
Pergunta: Que Congresso vem aí? Se o presidente vai ser fraco, como será a relação dele com o Congresso?
PK- O próximo Congresso vai ser mais ou menos o mesmo de hoje.
Se FH ganhar no primeiro turno, ficará forte. E a combinação
de um cenário de crise com uma
liderança forte trará, pelo menos, a possibilidade de
fazer as reformas mais importantes.
O PSDB deverá ter de 60 a 70 deputados.
O PFL deve continuar com cento e poucos, continuará a ser o maior partido.
O PMDB terá entre 80 e 90. Vai ter também de 10 a 13 senadores
entre os 27 que serão eleitos agora, e fará 10 ou 11 governadores.
É importante analisar a situação do PMDB porque, dadas
suas características, ele continuará a ser o fiel da balança
no processo decisório no Congresso. É um dificultador para
o governo, pois os votos do partido, por ser ele uma pluralidade de oligarquias,
têm que ser negociados um a um. Não é um partido com
comportamento previsível tal como o
PFL ou o PSDB.
Pergunta - Qual a chance de um próximo governo FH conseguir aprovar as reformas?
PK - FH perdeu a chance de fazer a reforma da previdência nos primeiros 100 dias do mandato, naquela lua de mel que foi perdida. Agora, se reeleito, ele terá que fazer isso no início do governo. Já existe um trabalho feito por André Lara Resende detalhando os resultados e o impacto de uma reforma radical que acabasse com todos os direitos da previdência. Seria o fim da noção de contrato no país.
A reforma política, embora seja urgente e fundamental, só será feita a conta-gotas. O voto distrital é o ítem mais complicado da reforma.
A mensagem enviada ao Congresso contém a descrição detalhada do que será feito como ajuste fiscal.
AB - O governo aprovará o que ele quiser, basta que defina com clareza sua intenção. 92% dos projetos aprovados pelo Congresso têm origem no Executivo. Há 6.000 projetos na pauta, originados por deputados, que jamais serão aprovados. Servem apenas para mostrar aos eleitores que tal deputado está tomando a iniciativa de apresentar um projeto, e aí termina a atuação do deputado, fica apenas na apresentação
Pergunta - Que impacto terá sobre um próximo governo FH a ausência de SP, MG e RJ?
PK - Como as máquinas estaduais participam do esforço de eleição dos membros do Congresso, não há dúvida de que o poder desses 3 governadores será crucial para definir o rumo das reformas que serão ou não aprovadas pelo próximo Congresso. Isso ficará muito claro no caso da reforma tributária.
O deputado Paulo Lustosa é presidente da Comissão Especial de Reforma Tributária da Câmara. Segundo uma pesquisa que ele fez no primeiro semestre desse ano, a reforma é considerada prioritária por 95% dos congressistas: 72% considera a reforma tributária extremamente necessária e 23% a consideram muito necessária.
A quase totalidade (92%) quer que essa reforma seja ampla e profunda.
Os principais objetivos da reforma, segundo eles, seriam geração de emprego, não cumulatividade de impostos, equilíbrio da carga tributária entre os diferentes setores da economia e ampliação da base com redução da carga por contribuinte.
Por outro lado, a quarta parte dos congressistas receia que a reforma poderia reduzir a autonomia dos Estados e municípios. Esse será um dos pontos mais difíceis, e tem a ver com o peso político dos governadores.
É importante ressaltar que 70% dos deputados acham que a participação do empresariado na reforma tributária é crucial.
[[ Em geral, quando o empresário vai ao Congresso ele vai sozinho
para defender seus interesses. O que ele precisa aprender é ir levar
ao Congresso seu poder de
voto. Aí então a relação mudará.
]]
Tópicos da conversa com James Weygand - Presidente da Kroll Associates
A causa da inflação é o deficit público, e FH, se reeleito, terá a última chance de acabar com ele.
A desvalorização cambial virá, a questão é saber quando. Os investidores externos vão esperar para poder ter 20% de desconto na compra.
O impacto da conjuntura internacional sobre o Brasil é mais psicológico do que estrutural. Embora a conjuntura externa seja grave, o clima de nervosismo no Brasil não deveria ser tão grande.
[[ No entanto, a percepção que se tem de uma situação tem um peso muito maior sobre o comportamento das pessoas e dos agentes econômicos do que qualquer descrição "objetiva". Assim, a forma como um país ou um grupo percebe a crise passa a ser um fator estrutural que permite descrever e prever comportamentos.]]
Brasil vai importar os efeitos da instabilidade externa.
Custo brasil é muito difícil de ser reduzido. Ele inclui roubo de cargas, roubos dentro da empresa, repasses de ineficiências públicas, fraudes de todos os tipos, falta de proteção pública.
Ninguém pode confiar na polícia para resolver o problema de roubo de carga, pois no Brasil a proteção pública ainda não é uma coisa institucionalizada que leva em conta para gerenciar a fase crítica 1999/2000:
Controle forte de estoques; fornecimentos just-in-time.
Gerenciamento do que for terceirizado, adotando
sistemas específicos para isso.
Capital de giro próprio.
Controle super apurado de custos.
Tópicos da Conversa com Alexandre Barros - Coordenador do Fórum
Mudanças Demográficas e Perspectivas do Mercado Brasileiro
Tem-se especulado que a "primeira crise da globalização" iniciada no final de 1997 deverá durar ainda alguns anos. O que isto significa, na verdade, é que a "segunda etapa da globalização" está começando, e que ela deverá durar alguns anos. Nessa fase, veremos grandes ajustes nas regras do mercado internacional e, o que nos interessa mais de perto, grandes rearranjos estruturais nos perfis de produção e consumo dos países emergentes ou periféricos.
Numa época de crise, é importante olhar o Brasil de uma perspectiva mais ampla para neutralizar as visões catastróficas que interessam, em última instância, aos que especulam com a crise para ganhar logo em seguida.
Numa pesquisa feita no ano passado durante reunião promovida pelo The Economist nos Estados Unidos com investidores americanos do setor de telecomunicações, 74% apontaram como principais razões para investir no Brasil e no Mercosul as boas perspectivas no longo prazo e o tamanho do mercado.
Números praticamente iguais de respostas para a mesma pergunta ( cerca de ¾ dos entrevistados ) foram obtidos na mesma época numa pesquisa com chefes de divisões latino-americanas de multi-nacionais sediadas nos Estados Unidos.
Isto indica que o Brasil é avaliado externamente de uma perspectiva de longo prazo. O investidor externo sabe que o mercado brasileiro não poderá ser desprezado em nenhuma avaliação de oportunidades globais para os próximos 10 ou 20 anos.
No contexto atual, é muito útil agregar essa perspectiva ao nosso marco de referência para analisar o cenário futuro de médio e longo prazos. A boa notícia trazida pela demografia é que existem variáveis estruturais específicas do mercado brasileiro que estarão contribuindo para neutralizar a vulnerabilidade do país no contexto incerto da globalização.
A ciência que lida com dados mais concretos para visualização do mercado futuro e para análises prospectivas não é a economia, mas a demografia.
O mercado brasileiro vai crescer nos próximos 20 anos porque as altas taxas de crescimento até 1980 estão colocando agora no mercado consumidor os milhões de pessoas nascidas nos anos 60 e 70.
A idade média atual do brasileiro é 25 anos. Nos próximos 15 anos, na medida em que o grosso da população caminhar para os 40-50 anos, o consumo crescerá continuamente. A redução relativa do mercado consumidor só começará a ser sentida dentro de 20-30 anos, em virtude da redução da taxa de natalidade nas décadas de 80 e 90.
Junta-se a isso outro dado importante: a demanda reprimida atual. A última Pesquisa de Padrão de Vida do IBGE, cujos resultados preliminares foram publicados em agosto, mostra que a demanda por bens de consumo duráveis ainda tem um enorme potencial de expansão:
Apenas 3.9% dos domicílios têm máquina de lavar louça; 5% têm computadores; 7.1% têm ar condicionado; 25.2% têm telefone ( menor que o número dos que têm automóvel! ); 26.5% têm automóvel; 26.9% têm vídeo cassete; 33.2% têm máquina de lavar roupa. Esses números crescerão na medida em que os novos consumidores se casam ou ganham autonomia financeira e multiplicam o número de domicílios que demandarão esses bens.
Idade vai associada com mudanças de hábitos, valores e aspirações. Demógrafos especializados em mercado de consumo conhecem a relação entre idade e padrões de consumo de todo tipo de bens e serviços, desde automóveis a bengalas e cadeiras de rodas, passando por restaurantes, turismo, construção civil, lazer doméstico e o que se possa imaginar.
Conhecer esses perfis de demanda futura e programar-se para abrir ou ampliar nichos o mais precocemente possível é um trunfo a ser seriamente considerado por qualquer empresa com vocação para o planejamento estratégico.
Há estudos sofisticados sobre o perfil dos novos consumidores, de suas crenças e prioridades. Esses consumidores tenderão a se preocupar com saúde, meio ambiente, auto-ajuda. Serão mais cosmopolitas, mais livres de noções nacionalistas em geral, e no consumo em particular. Terão atitude mais contratual, serão mais militantes e, acima de tudo, interessados na qualidade do atendimento e do serviço.
É possível que os anos 90 venham a ser descritos, dentro de algumas décadas, como o inicio de uma outra revolução ainda não batizada, mas que poderá ser sintetizada nessas poucas palavras: Nos anos 90, os bens começaram a ser vistos, cada vez mais, como serviços.
A compreensão do alcance dessa tendência recém-iniciada fará toda a diferença na posição de uma empresa no mercado futuro. Sairá na frente quem fizer investimentos cada vez mais bem planejados em criação e manutenção de processos, produtos e recursos humanos voltados primordialmente para a satisfação do cliente -- cada vez mais identificado como cidadão, e não apenas como um comprador.
É fundamental que essa perspectiva seja adotada como pressuposto básico do planejamento, e não apenas como um ítem na estratégia da empresa. O futuro exige que as empresas comecem a investir agora em conhecer as características do futuro cidadão-consumidor e o contexto no qual ele estará operando.
Ironicamente, a crise atual pode ser usada como alavanca para esse planejamento: envolver toda a hierarquia da empresa em programas de treinamento-para-o-futuro neutralizará, e muito, a tendência natural de desinvestir esforços e compromissos num contexto de insegurança e medo do futuro.
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