Fórum Empresarial Brasil
DESTAQUES DA REUNIÃO DE 29 DE JUNHO DE 1999
com
ALEXANDRE BARROS
PRESIDENTE DO FÓRUM EMPRESARIAL BRASIL
Alexandre Barros, Presidente do Fórum, fez uma apresentação sobre dois temas:
1. A reconceituação do mercado como um local virtual ao
qual consumidores irão em busca de entretenimento ao comprar o que
quer que seja, e
2. As bases demográficas da irreversível ampliação
do mercado brasileiro nas próximas duas décadas em função
das altas taxas de natalidade dos anos 60 e 70.
Em seguida, discutiu com os participantes questões políticas relacionadas com a reunião da Cimeira, com a formação de mercados regionais e com as perspectivas de mudanças políticas no médio e longo prazo.
A Economia do Entretenimento: novos parâmetros para
os negócios do futuro
O impacto da Internet nas formas de fazer negócios
O impacto da Cimeira sobre os negócios
Reformas e mudanças políticas
O crescimento irreversível do mercado brasileiro
nas próximas décadas
A ECONOMIA DO ENTRETENIMENTO
A apresentação desse tema foi inspirada pelo livro The
Entertainment Economy, de Michael Wolf, publicado há poucos meses.
A meu ver, é um livro tão original quanto foi O Choque do
Futuro de Alvin Toffler, lançado há quase 30 anos atrás.
O livro traz um novo modo de pensar, um modo integrado de pensar a questão
produto-mercado-consumidor. No mercado do futuro--que está apenas
a um passo de nós--comunicação e entretenimento serão
as chaves do sucesso e da sobrevivência de qualquer negócio.
Michael Wolf chama de Fator-E aquilo que definirá o sucesso de qualquer negócio no futuro: uma combinação de entretenimento (para atrair) e conteúdo (para manter).
A proposição inovadora do livro é que, com a universalização das tecnologias de comunicação e a globalização de mercados, as rotinas e os problemas que antes caracterizavam a indústria do entretenimento passaram a ser parte do universo de preocupação de qualquer empresa: para atrair a atenção do seu público-alvo e criar vínculos duradouros com ele, qualquer empresa terá que agregar crescentes e variados componentes de entretenimento ao processo de comprar ou consumir seus produtos ou serviços.
Para mostrar-se na Internet e vender, uma empresa já tem que criar e reeditar permanentemente uma página que informe, agrade e entretenha uma multidão de potenciais compradores ou clientes. E os frequentadores dessa página estarão "one click away" da próxima página. Não há mais necessidade de caminhar ou tomar o carro para ir ao concorrente: basta clicar um botão.
Para atrair seu público-alvo, um super-mercado, uma loja, um shopping ou um banco vão ter que se transformar em mini-parques temáticos, vendendo, antes de mais nada, um certo "clima" que os diferencie dos demais.
Tradicionalmente, negócios que tinham seus limites definidos pela capacidade de consumo intrínseca aos produtos que vendiam há um limite para o número de sanduiches que alguém pode comer no McDonald's operavam baseados em uma fórmula que estabelecia quantas lojas era possível colocar num bairro ou numa região sem ter prejuizo.
Hoje, a economia do entretenimento permitiu redefinir o conceito de produtos e serviços e as empresas estão se libertando da camisa-de-força das quotas. O McDonald's já não é mais uma cadeia que vende sanduiches, mas uma empresa de entretenimento que também vende sanduiches.
E como a propensão para consumir entretenimento é muito maior do que a capacidade de consumir sanduiches, descobriu-se que quanto mais lojas se abrir, maior será o consumo em todas elas.
A Livraria Border's e o Starbucks Café também fizeram uma revolução total de conceitos (e no valor de suas ações no mercado) ao se redefinirem como empresas de entretenimento.
Num período de 3 anos, a Internet foi de 10 milhões para cem milhões de usuários no mundo.
Essas pessoas estão consumindo, através da rede, coisas que não consumiriam se tivessem que se deslocar para uma loja ou um shopping center. A convivência com a Internet está ajudando a criar nas mentes de multidões um novo conceito de consumo. Consumir significará, cada vez mais, uma atividade multifacetada que inclui as noções de divertimento, liberdade de escolha, intensidade das experiências. Até pouco tempo atrás isso correspondia ao universo da indústria de entretenimento, e não ao consumo em geral.
Um breve comentário sobre o livro: é cheio de detalhes, auto-elogiativo e bastante repetitivo, mas isso não suplanta, de modo algum, o brilho de sua originalidade. É um livro para ser lido por muitos na empresa e usado como moldura para repensar as estratégias para os próximos anos: "o que estaríamos fazendo daqui a 3 anos se já tivéssemos adotado a linha estratégica proposta por Michael Wolf? Como poderá ser nossa cara mais moderna dentro do cenário da Economia do Entretenimento?"
O IMPACTO DA INTERNET NAS FORMAS DE FAZER NEGÓCIOS
[[ Um dos sites mais inovadores da Internet, em termos de facilitação
do comércio, é o ariba.com . Eles trabalham com procurement
global, cadastrando necessidades e interesses de compradores e produtores.
Ariba agrega demandas por tipo e encaminha para fornecedores capazes de atender as especificações em troca de uma taxa. Dado o volume dos negócios, o custo unitário é menor para todos e todos ganham.]]
[[A previsão é de que dentro de 3 anos todo o procurement europeu estará sendo feito através da Internet. E aí está embutido o conceito de entretenimento: páginas bonitas, dinâmicas, interativas que garantem ao ato de comprar cadeiras, por exemplo, um componente de diversão e prazer muito maior do que seria andar de loja em loja comparando produtos e preços.]]
[[ O grande fluxo de comércio dentro da Internet é entre
empresas, e não no varejo. A General Motors colocou todo o seu procurement
na Internet há alguns anos. As projeções estimam que,
nos próximos anos, esse será o papel mais revolucionário
da Internet como meio de comércio.
Há uma meia dúzia de companhias que produzirão
computadores, impressoras, etc, e essas companhias é que irão
comprar todos os componentes eletrônicos do mundo. Essa concentração
garante uma imensa eficiência, e a Internet é o meio mais
natural para realizar esse tipo de comércio.]]
[[ Não só na área tecnológica o Brasil está atrasado em perceber mudanças e ajustar-se a elas. Antonio Carlos Magalhães disse recentemente que bancos governamentais não deveriam financiar empresas que demitem. E eu pergunto: como se pode globalizar uma economia sem demitir? É claro que nem ele acredita nisso, é uma afirmação politiqueira, mas ele tem o poder de formar opiniões, e com isso está reforçando visões ultrapassadas.]]
AB - Sim, porque é óbvio que a modernização tecnológica e a globalização gerarão mais empregos do que estão eliminando embora, da perspectiva dos que perdem o emprego, uma fase de transição é confusa e dolorosa. Isso acontece em todos os momentos de mudança estrutural e com todas as tecnologias de impacto. Com a invenção da eletricidade, houve grandes protestos dos produtores de gás e de postes ao perceberem que as lâmpadas eliminariam do mercado os lampiões a gás. Eles não conseguiam visualizar os benefícios da eletricidade e da iluminação pública elétrica. E mais: não conseguiram visualizar a quantidade de novos produtos, serviços e empregos que a eletricidade iria gerar.
[[Para que a transição e as novas tecnologias criem novos empregos, é preciso que se dê grande ênfase à educação, que se prepare os indivíduos para transitarem dos antigos empregos para os novos.]]
AB - Quem fêz isso muito bem foi o governo Reagan. Em 1980 ele disse que seu compromisso era preparar a economia americana para o século 21 e que iria cuidar de 3 áreas: o mercado de armas, o de tecnologia e o financeiro. E então investiu em educação para reciclar as pessoas em função dessas metas.
O IMPACTO DA CIMEIRA SOBRE OS NEGÓCIOS
[[As questões de relações internacionais negociadas
a longo prazo, tal como essa da Cimeira, são de difícil compreensão
porque exigem um acompanhamento permanente. Seria possível sintetizar
como a Cimeira se insere no processo global de negociação
com a Europa e no contexto das negociações multilaterais
de comércio?]]
Jean Michael A Organização Mundial do Comércio está buscando estabelecer regras claras e criar mecanismos de regulação de disputas comerciais entre países. Em 1980, logo após sua primeira eleição, Reagan fez a proposta de um mercado de livre comércio englobando Estados Unidos, Canadá e México, e imediatamente México e Canadá disseram que não. Eles achavam que iriam ser comidos vivos, que os Estados Unidos queriam apenas a mão-de-obra barata mexicana e os recursos naturais canadenses.
Dois anos depois o governo do Canadá encomendou um estudo sobre o futuro do país, e a conclusão foi que se o Canadá não conseguisse acesso a um mercado de mais de 100 milhões de consumidores, dentro de 25 anos ele seria um país de terceiro mundo. Todos os outros países industrializados tinham mercados grandes disponíveis, menos o Canadá: Japão, União Européia, Estados Unidos.
Em janeiro de 1989 os 3 países estabeleceram um prazo de 10 anos para eliminar todas as tarifas, e assim foi feito. O acordo final foi assinado em 1994. Tendo 33 milhões de habitantes, o Canadá criou um milhão de novos empregos desde então. O comércio com os Estados Unidos aumentou 80%, os investimentos externos no Canadá aumentaram 55%. Em 5 anos, recebemos mais de 200 bilhões de dólares de investimentos estrangeiros, e investimos em outros países mais de 150 bilhões de dólares.
Tínhamos também, como o Brasil nos anos 80, um grande muro ao redor do país, e nossas empresas não podiam competir no mercado internacional. O acordo nos tornou muito mais competitivos.
O comércio bilateral Canadá-México dobrou desde então. O investimento canadense no México cresceu 450%. Antigamente, o México exportava petróleo para o Canadá, agora 60% são auto-peças.
Agora o Brasil se encontra nessa abertura fantástica desde 1990,
e tem a grande chance de ter um comércio com Europa, América
do Norte e América do Sul. Não vejo nenhuma contradição
em negociar com a ALCA e a União Européia ao mesmo tempo,
e também ser parte da OMC.
A única coisa que me surpreende é ver que muitos empresários
brasileiros, intelectuais e pessoas do governo têm muito receio dos
Estados Unidos mas parecem estar imaginando que negociar com a União
Européia vai ser um picnic. Vai ser uma troca: para os produtos
agrícolas entrarem na União Européia, a troca será
abrir o mercado brasileiro de serviços, o industrial, etc.
AB - O fato de ter a capital em Brasília cria um problema: quem conversa com o Governo é quem se sente prejudicado e se dá o trabalho de ir a Brasília. Quem está indo bem não vai. Nas reuniões da ALCA, um fato marcante é que as delegações de empresários dos outros países são muito maiores que as brasileiras, pois o Itamaraty tende a assumir o controle das negociações. Isso tem aspectos positivos e negativos. Como também reage a pressões, o Itamaraty representará quem tiver ido até ele.
Numa recente reunião preparatória para a Cimeira promovida pelo Itamaraty, havia 54 palestrantes, e apenas 3 eram do setor privado: Luiz Fernando Furlan da Sadia, o Amaury Temporal e eu. O setor privado estava ausente.
Eu sempre digo, para desagrado de muitas pessoas do governo, que o processo de liberalização comercial é historicamente irreversível por causa da tecnologia. A mudança tecnológica cresce vertiginosamente, enquanto que a tecnologia que se usa para administrar os processos de mudança e os recursos envolvidos é uma tecnologia que tem 500 anos: o Estado nacional. Essa tecnologia organizacional não tem mais capacidade de responder ao desenvolvimento tecnológico, da mesma maneira que o feudalismo não podia responder à invenção do molejo para carroças, ao barateamento dos paralelepípedos e dos meios de transporte.
Se pensamos o mundo em 1450, ele era um conjunto de pequenas unidades que tinham todo tipo de embaraços: dificuldades de transportes, de vias, pedágios,etc. Quando se criaram as tecnologias de transporte as estruturas feudais começaram a cair, e isso envolveu um processo brutal de destruição dessas barreiras. O que o mundo hoje consegue através de negociação a Europa fêz durante 300 anos através de guerra e matanças. O que mais se destruiu na Europa entre 1450 e 1750 foram castelos e seus habitantes.
Hoje, com passagem barata de avião, o fax, a Internet, as embaixadas deixam de ter qualquer papel numa série de operações que antes as ocupavam em tempo integral. Hoje os empresários se comunicam diretamente com órgãos governamentais ou empresários de outros países.
JM Isso é verdade também no campo político: o Presidente do Brasil pega o telefone e fala diretamente com o Primeiro-Ministro canadense sem qualquer participação das embaixadas.
[[ Quando é que os resultados específicos das negociações dos acordos começarão a aparecer concretamente e a gerar queda de barreiras comerciais, sanitárias, tarifárias etc.?]]
AB - A função da Cimeira, assim como a reunião do meio-ambiente que aconteceu no Rio em 1992, é criar e legitimar comitês especializados que continuarão a se reunir nos anos seguintes para estudar, negociar e produzir os meios necessários para que as idéias contidas nas declarações e nos acordos sejam implementadas.
JM As negociações sobre barreiras tarifárias só começarão dentro de 18 meses. Cabe a cada setor informar ao Itamaraty suas necessidades e demandas. Nada entrará em vigor enquanto não se fecharem as negociações em todos os setores, o que deve se estender por alguns anos.
Os países do Mercosul queriam uma negociação em grupo com a União Européia. Os países europeus complicaram um pouco o processo porque entraram com todos os países latino-americanos mais o Caribe. A França lutou para que não houvesse uma área de livre comércio, mas apenas liberalização de negociações comerciais. Todos sabemos que isso é para consumo interno na França. Na realidade, os parceiros serão Mercosul e União Européia, porque os outros não têm ainda condições de integrar esses acordos.
[[ Um dado relevante é a velocidade com que estão ocorrendo essas negociações. A União Européia levou quase 50 anos para existir. O Mercosul tem 8 anos apenas e a integração comercial entre os parceiros é já muito superior ao que era na União Européia há alguns anos atrás. Essa velocidade tem que ser levada em conta por todas as empresas interessadas no Mercosul: em dois ou três anos, empresas podem desaparecer, como muitas desapareceram na Argentina. Outras, com maior capacidade de previsão, triplicaram ou quadruplicaram seus volumes. Somos testemunhas de um processo de transformação que está ocorrendo numa velocidade nunca vista antes.
AB - A ALCA vem em 2005, os diplomatas já reconhecem isso. E a negociação com a União Européia também virá muito rapidamente. Está correta a fala de Fernando Henrique ao dizer que o Brasil vai levar os dois processos paralelamente.
AB - A moeda como símbolo de soberania é uma noção que acabou, simplesmente desapareceu depois do Euro. Por isso é perfeitamente possível pensar numa moeda única no Mercosul ou na ALCA. O problema nas Américas é que os Estados Unidos têm uma moeda forte e a tendência vai ser dolarizar ao invés de criar uma moeda "neutra" como fêz a Europa. Isso afeta egos e orgulhos nacionais muito mais do que se se criasse uma moeda neutra como o Euro.
Outra coisa importante a considerar são os protestos diante da importação de mão-de-obra na área de serviços. Engenheiros, economistas, advogados estão querendo estabelecer restrições a essa importação. [[ Vamos acabar entendendo os dentistas de Portugal]].
Existe imensa resistência das burocracias governamentais a esses processos de integração. O Banco Central, por exemplo, tem um enorme contingente de técnicos bem treinados durante anos e anos para impedir a entrada de capitais. Quando recebem ordens para não só parar de impedir como de ativamente liberar e atrair o fluxo de capitais, a oposição é imensa. O mesmo com os funcionários da Receita Federal nas fronteiras: querem manter seu poder.
[[ O setor de carroceria é muito assimétrico: o Brasil produz 20 mil ônibus por ano e a Argentina produz 3 mil. Temos 5 players no Brasil, todos de grande porte, e a Argentina tem 20 pequenos. Ao abrir o mercado, vimos que corríamos o risco de acabar com a indústria argentina, e foram criadas as quotas de salvaguarda. Mas encontramos as maiores dificuldades nas operações de drawback porque os fiscais aduaneiros não conseguiam entender nem aceitar que as operações que a ele pareciam de importação ou exportação não envolviam mais impostos (não rendiam mais participação na arrecadação)]].
[[Os grandes negócios do futuro, e já de agora, são os que não dependem de coisas físicas, mas de informação e conhecimento. Para esses, é quase totalmente impossível ter barreiras alfandegárias. Os produtos manufaturados estão cada vez mais baratos, e os alimentos também. O que hoje se paga é o talento, e não a mão de obra.
A educação atual não serve para o mundo do futuro, é uma educação voltada para o conhecimento do passado. Isso tem que ser totalmente revisto. A dinâmica de agregação do conhecimento é outra. As empresas têm que ter programas de educação continuada se quiserem sobreviver.]]
REFORMAS E MUDANÇAS POLÍTICAS
[[ Se a reforma tributária for votada esse ano
AB - Não será, porque muitos perderão com isso.
Além de os políticos que compõem o Congresso não
terem interesse nessa reforma, o Executivo também não quer
vê-la aprovada agora, tanto que retirou suas propostas. Qualquer
coisa que se aprovar agora será apenas uma meia-sola.
[[Ao governo interessa o maior número de graus de liberdade para
aumentar sua arrecadação. Fala-se agora no imposto verde
loteado para o PMDB que hoje está no Ministério dos Transportes.
A discussão mais relevante embutida no tema da reforma fiscal é:
Que Estado nós queremos? De que tamanho?
O ano 2000 é ano de eleições municipais, e não
será a hora de mexer no pacto federativo tal como ocorreria necessariamente
com uma reforma. E em 2001 o governo já terá perdido força
se quisesse realmente fazê-lo. Então está adiada
para 2003. Enquanto isso, o setor empresarial terá que encontrar
suas soluções.]]
AB O Presidente está muito debilitado politicamente desde janeiro. O jogo político atual, e que será jogado nos próximos 3 anos e meio, é o seguinte: Fernando Henrique está em cima de uma corda e todo mundo está sacudindo essa corda para inviabilizar a candidatura presidencial do PSDB, seja ela qual fôr. As duas mais viáveis são Mário Covas e José Serra. Resultado trágico: tudo que os outros partidos puderem fazer para sabotar os programas de saúde eles farão, em nome de seus interesses pessoais. Os milhões de brasileiros pagarão a conta com sofrimento e morte. E isso ocorrerá não só na saúde mas em todas as áreas que os partidos da oposição conseguirem prejudicar.
O perigo é que, de tanto ser balançado, Fernando Henrique caia. Infelizmente, essa não é uma hipótese a ser descartada, dada a selvageria desse jogo.
Uma conseqüência interessante da inviabilização do PSDB seria a possibilidade de que os partidos que têm grande representação parlamentar consigam eleger o presidente da república e quebrem o que já é tradição na história do Brasil, esse padrão de conflito entre os dois poderes.
[[ Fernando Henrique tem ainda muito tempo. Ele pode virar a situação dentro de 6 meses para aumentar sua popularidade. Reagan foi o presidente mais odiado no início de seu primeiro mandato. Fernando Henrique está mexendo em muitos ninhos de cobra, há empresários na cadeia por não pagarem impostos. ]]
[[ O que o governo conseguiu na mudança cambial foi muito melhor do que se esperava. O Serjão falava num projeto de 20 anos. Muitos no PSDB pensam na implantação do parlamentarismo com Fernando Henrique como Primeiro Ministro.]]
AB Tudo isso é possível, mas se outro cenário se concretizar, será apesar do fato de que todos que não são do PSDB desejam derrubar qualquer chance de que ele ganhe a próxima eleição.
Mas não devemos fixar nossos olhos e nossas esperanças apenas no Congresso e no Executivo. Há focos de mudança muito dinâmicos no país e que só agora estamos aprendendo a identificar. O Ministério Público é um deles. Seus integrantes são jovens, admitidos por concurso, e têm autonomia para iniciar processos de interesse público sem precisar centenas de adesões, como no Congresso. Vale a pena conhecer o Ministério Público e a imensa quantidade de iniciativas regionais que têm partido dele e produzido mudanças de grande impacto. Traremos ao Fórum, ainda esse ano, membros do Ministério Público para discutir conosco as perspectivas de mudanças para os próximos anos.
O CRESCIMENTO IRREVERSÍVEL DO MERCADO BRASILEIRO
Muitas coisas importantes acontecem no Brasil independentemente da
vontade do governo e de forças estabelecidas. Uma delas, das mais
interessantes, é a questão da estrutura demográfica.
No ano 2.000 o Brasil vai ter 50 milhões de pessoas a menos do que teria segundo as projeções feitas em 1990. E isso aconteceu independentemente do fato de que a igreja católica, os militares, a direita e a esquerda foram e são contra a limitação da natalidade. Apesar de tudo isso, as mulheres brasileiras e as famílias brasileiras decidiram ter menos filhos. Ótimo para o país.
Ao mesmo tempo, apesar da queda na taxa de natalidade, o Brasil tem um mercado invejado por todo o mundo e com uma estrutura etária tal que garante que um imenso contingente populacional estará no auge de sua capacidade de consumo durante os próximos 20 a 30 anos. Melhor ainda para o país.
O Brasil tem 160 milhões de pessoas. Alguém pode dizer: mas a grande parte é muito pobre, não está no mercado. Uma resposta possível é: sim, ainda não está no mercado, e por isso mesmo o mercado é promissor.
Os brasileiros que nasceram nas décadas de 60 e 70 estão entrando agora na fase de consumo crescente, e esse grupo garantirá um ritmo de consumo elevado nos próximos 20 ou 30 anos.
Em 1996 a idade média do brasileiro era 28 anos, em 2010 será 32 e em 2020 será 36. Essas pessoas estarão numa fase de consumo intenso, estabilizadas na vida, em fase de investimento em infra-estrutura doméstica e de aquisição de bens que lhes garantam segurança no futuro.
A Pesquisa de Padrão de Vida do IBGE é indispensável para quem quer se planejar para os mercados do futuro. Está disponível em CDRom, custa pouco mais de 200 reais e pode ser operada com Excel. Ela mostra que 95% dos domicílios brasileiros ainda não têm computador, 93% não têm ar condicionado, 75% não têm automóvel, 73% não têm vídeo e 67% não têm máquina de lavar roupa.
Nos países desenvolvidos o mercado já está bastante exaurido: a Suécia é um país com pouca gente e onde todos já têm quase tudo. O Brasil tem muita gente e a grande parte ainda não tem o que se considera, na nossa cultura, o mínimo desejável.
Metade das coisas que usamos hoje não existiam há 50 anos, e mais da metade do que usaremos daqui a 25 anos não foram ainda inventadas. Prever o futuro é perigoso, mas a demografia nos oferece uma das bases mais seguras para previsões.
Existe o mito de que as décadas de 80 e 90 foram perdidas. No entanto, podemos ver que muitas das empresas do Fórum tiveram imensos crescimentos nessas décadas, propiciados pela modernização de telecomunicações e computação, por enormes reduções de custos, pela criação de mercados comuns e pelos benefícios do Plano Real. A noção da década perdida é muito relativa.
É verdade que as pessoas só acreditam no que querem, independentemente de outros estarem vendo sinais ou dando sinais a elas de que suas crenças estão equivocadas. O fascinante a respeito da demografia é que ela nos dá base para sustentar crenças seguras e fazer previsões bastante seguras, rebatendo, por exemplo, as expectativas negativas sobre o Brasil nas próximas décadas.
Temos todos os indícios de que o Brasil encerrou uma fase histórica caracterizada pelo caos inflacionário, a instabilidade política e o catastrofismo das análises políticas e econômicas. Todos os instrumentos de análise tiveram que ser mudados num prazo curtíssimo, de uns poucos anos, e hoje o que se requer é pensar o futuro, detalhar os futuros possíveis com base em projeções agora construtivistas.
As resistências às novas tecnologias acontecem sempre: houve campanhas contra a eletricidade porque ela matava; os automóveis foram considerados perigosíssimos porque andavam à espantosa velocidade de 15 km por hora; o computador geraria desemprego; telefone celular daria câncer no cérebro; pedia-se que as pessoas não mandassem fax para não gastar papel.
Hoje, há um bando de indivíduos dedicados a policiar a Internet, perseguir os que fazem o que chamam de spam, enquanto que, na ponta oposta, com visão de futuro, alguém acaba de disponibilizar uma nova invenção que resultará numa verdadeira revolução: um programa de computador que está sendo distribuído de graça chamado Third Voice. Através dele, qualquer pessoa pode entrar no site de alguém e colar uma notinha dizendo o que quiser a respeito daquele site, com direito de resposta! O endereço para descarregar esse programa é thirdvoice.com
Estive recentemente numa reunião de planejamento estratégico para pensar o Brasil em 2020. As preocupações daquele fórum não tinham a mais leve semelhança com as de vocês, empresários: alguém ali estava muito preocupado com o complô da imprensa esquerdista contra o Brasil na década de 1970, outro falava sobre a necessidade de restaurar a imagem de D. Pedro I... Ninguém falou sobre tecnologia. A única menção tecnológica foi feita por um senador do PSDB dizendo que é preciso controlar a Internet porque há muito lixo na rede.
Um outro fator que garantirá uma expansão crescente do mercado brasileiro nas próximas décadas está associado às mudanças no conceito de velhice. Pessoas acima de 55 anos, que até pouco tempo atrás eram consideradas encerradas, hoje estão se reciclando e desenvolvendo novas habilidades. A maneira de ser velho está mudando. Escolas e universidades já oferecem uma grande quantidade de vagas para alunos da chamada terceira idade, garantindo a milhões de pessoas sua manutenção no mercado de consumo por muito mais anos.
Além disso, o Mercosul e as políticas de integração também aumentarão o mercado brasileiro. Fernando Henrique acabou de dizer que o Brasil quer que a integração com a União Européia e com a ALCA ocorra ao mesmo tempo. Isso vai garantir duas novas frentes de ampliação de mercado para o Brasil.
FIM DO TEXTO
Fim de texto
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