A comédia da vida corporativa
O lado caricato nas grandes empresas do país,
com personagens (quase) de carne e osso
Revista Veja nº 49
(6 de dezembro de 2000)
O charme real e virtual que cerca a vida dos altos executivos
enche os olhos de quem
está de fora do seleto grupo de homens e mulheres que
comandam grandes
corporações. Viagens internacionais, carros importados,
cartões de crédito sem limite e
hospedagens em hotéis cinco-estrelas são fascínios
que alimentam as máquinas
corporativas e motivam o trabalho desde o mais tenro estagiário
ao gerente de carreira
mais sólida. Todos querem atingir o topo da pirâmide
social das empresas e manter-se
nele. Foi escrita uma infinidade de obras pretensamente capazes
de ensinar como
chegar lá. Elas se revezam nas primeiras posições
da lista de livros mais vendidos.
Muitas se tornaram clássicos. Coube ao consultor Fábio
Steinberg, carioca de 50 anos,
mais de trinta deles trabalhando em algumas das maiores empresas
nacionais e
multinacionais instaladas no Brasil, pintar o outro lado da
aventura. Ele deixa as
repisadas glórias da rotina empresarial para os outros
e concentra-se nas baixezas.
Steinberg reuniu em livro meia centena de ensaios escritos sobre
o lado caricato da vida
corporativa, alguns já publicados pela revista Exame,
do Grupo Abril, que edita VEJA.
Deu ao livro o nome de Ficções Reais (Editora
Campus; 221 páginas; 25 reais). "É um
mito imaginar que se chega ao paraíso depois de ultrapassar
determinado ponto da
carreira. Também é irreal a concepção
de que a escalada é sempre segura para quem
tem talento, é esforçado e honesto", diz Steinberg.
"Na verdade, sobem mais rápido os
burocratas espertos, que decifram os códigos da empresa,
e não os funcionários mais
produtivos." Steinberg demonstra especial interesse num certo
tipo que ele define como
"pavão corporativo". É o sujeito seguro, cheio
de planos, sempre ocupando um cargo de
conselheiro, o que o livra das responsabilidades às vezes
demolidoras de tomar
decisões erradas. "Não importa a moda administrativa,
eles sempre escapam da degola
e seguem sua vitoriosa carreira de inutilidade", explica o autor.
Suas crônicas falam
também da amargura e das apostas ousadas que os executivos
ambiciosos fazem para
subir a qualquer preço. Vale tudo para chegar ao topo
da empresa e garantir poder e
prestígio: casar com a filha feia do patrão, valer-se
de informação privilegiada para
chantagear colegas e superiores, apresentar projetos mirabolantes
que não levam a
nada e montar uma boa e bem arquitetada rede de relacionamentos
construída somente
para facilitar a escalada até o topo. "Não são
pessoas sem caráter. Apenas são forçadas
pelas circunstâncias a atropelar sua ética pessoal
em busca do sucesso", diz Fábio
Steinberg.
Quem já pendurou no peito o crachá de uma empresa,
com foto e número de
identificação, sabe que a vida corporativa tem
seu lado teatral – como toda e qualquer
atividade humana organizada coletivamente, seja na escola ou
na família. Mas, vistos em
grupo sob a ótica crítica de Steinberg, os "seres
corporativos" parecem mais pérfidos
que as demais pessoas. E nesse aspecto está o lado caricato
e engraçado do livro.
Entre seus personagens estão secretárias que vivem
num mundo de faz-de-conta,
executivos com cultura de almanaque, carreiristas com respostas
na ponta da língua e
burocratas cuja única preocupação na carreira
é criar situações que tornem sua função
imprescindível. Seus personagens são tirados de
exemplos reais de carne e osso? "Eles
são frankensteins feitos de retalhos de pessoas reais
e outras nem tanto", explica o
autor. Na semana passada, quando o livro começou a circular
ainda de forma restrita
(ele chega às livrarias nesta semana), havia apostas
sobre quem seria quem entre
alguns dos personagens de Fábio Steinberg. Chamou a atenção
o último dos ensaios,
intitulado Eunice sem Sobrenome, que conta a história
de uma mulher executiva sem
um sobrenome famoso que vence no mundo corporativo sempre como
a Eunice da IBM,
ou do Pão de Açúcar, ou da Microsoft. Pelas
similaridades do relato com a carreira de
Marluce Dias, a "Marluce da Globo", sob cujas ordens Steinberg
trabalhou recentemente,
fica a impressão de que ele quis mesmo caricaturar a
vida da ex-chefe. "Não faria isso.
Existem muitas executivas no Brasil que se encaixam no perfil
da Eunice sem
sobrenome", limita-se a informar o autor.
Há vários outros caricaturados que se encaixam
em alguns aspectos nas figuras
poderosas que cruzaram a vida profissional do autor do livro.
O executivo que se sente
"o dono do mundo" depois de sair na capa de uma revista e vê
o mundo desmoronar em
seguida ao ser demitido semanas depois seria Omar Carneiro da
Cunha, que foi
presidente das filiais da Shell e da AT&T no Brasil. Hoje
é o principal executivo do grupo
Bob's. "Não é segredo para ninguém que
Omar é muito vaidoso, mas o personagem que
criei, nesse caso, é fictício", diz Steinberg,
que, igualmente, trabalhou com Carneiro da
Cunha. Se fosse um livro de revanche contra ex-chefes, a obra
de Steinberg seria
limitada por esse aspecto utilitário e perderia muito
do interesse que pode despertar. O
mundo que ele relata tem lá sua harmonia, sua ética
estranha e particular. Conhecê-lo
através dos olhos do autor, mesmo com a tentativa que
ele faz de não ser neutro, ajuda
a entender o universo descrito.
A maneira como carreiras de sucesso são construídas
ou desfeitas chama a atenção de
estudiosos do meio empresarial há muitas décadas.
Várias publicações sobre o tema
surgiram nos últimos anos pelo mundo afora. Esses estudos
mostram como uma boa
rede de relacionamentos vale mais do que a capacidade profissional
em alguns casos.
Quase tão vital quanto saber fazer é saber se
vender, propagandear suas qualidades. É
assim que as empresas são organizadas. Mesmo as melhores.
Como em toda
organização, existem tipos obscuros, seres enigmáticos
cujo sucesso desafia o
entendimento pelo senso comum. Esse tipo é relatado com
precisão num dos capítulos
do livro, por sinal a parte mais engraçada. Steinberg
chama esse profissional de
"ratocorp" – ou o rato corporativo. "Ele tem orelhas grandes,
para ouvir cada sussurro, e
olhos esbugalhados, para não perder qualquer movimento.
Não é o puxa-saco comum,
nem o carreirista. É, mais do que isso, o sujeito que
se apossa das sobras de energia e
de talento dos colegas e nunca é demitido, nem nas crises
econômicas mais
profundas."
Outro tipo revelado por ele, não sem uma certa crueldade,
é o das pessoas que
descobrem na corporação uma vida mais confortável
do que conseguem bancar na
esfera privada. "A vida na empresa é muitas vezes melhor
que a real. Isso cria um
choque nas pessoas. Elas passam a viver um conto de fadas, como
a gata borralheira.
São príncipes e princesas na vida corporativa
que voltam a sua realidade no final do dia",
diz. E, quanto maior a empresa, maior a distância entre
a realidade e a ficção das
corporações. Jantares em restaurantes da moda,
hospedagem em hotéis de luxo, carro
zero, roupas de grife e poder sobre o destino das pessoas fazem
parte da vida
corporativa. Contas a pagar, filhos para criar, conserto do
carro, reunião de condomínio e
cheque especial estourado fazem parte da vida real. "As pessoas
querem abandonar,
mesmo que por algumas horas do dia, a vida real em preto-e-branco
e viver a vida
colorida que as empresas proporcionam."
Steinberg não é o primeiro nem o mais devastador
cronista da vida corporativa. Esse
tema é antigo e já teve inúmeros intérpretes.
Muito conhecido, o cartunista americano
Scott Adams foi um dos que levaram a ironia para os quadrinhos
com que retrata o
universo das grandes empresas. Dilbert, seu herói, ou
anti-herói, surgiu como uma
resposta aos projetos de reengenharia, um modismo na administração
do começo dos
anos 90. Pela ótica de Dilbert, independentemente do
modismo em voga, toda a
administração é baseada numa rígida
hierarquia, que lembra o modelo militar. O general
é o presidente. Logo abaixo vêm vice-presidente
e diretores, que poderiam ser os
coronéis. O sargentão é o chefe imediato,
que, atingido pelo stress de carregar todos os
chefes acima dele, anda normalmente mal-humorado. A lista segue
até o chamado
soldado corporativo, aquele que não conhece quase nada
da estratégia da empresa,
cumpre suas obrigações e espera um dia ser reconhecido.
Dilbert faz rir mostrando
como as culturas corporativas acabam fazendo as pessoas se cercarem
de zonas de
proteção formadas de boas doses de cinismo. No
fundo, são todos iguais. Os
fracassados e os bem-sucedidos. Steinberg aborda bem a massificação
dos executivos.
"O gênio e o idiota têm a mesma chance de triunfar
na civilização corporativa", diz
Steinberg. Thomaz Wood Junior, professor da Fundação
Getúlio Vargas de São Paulo e
autor do livro Organizações Espetaculares, com
lançamento previsto para este mês,
completa: "Ninguém escapa da doutrinação
corporativa. Ou se adapta ou é expelido".
Wood estudou o que chama de teatro da vida organizacional em
sua tese de doutorado
e chegou à conclusão de que para muitos executivos
o trabalho substitui a vida. O
trabalho, nesse aspecto, pode tornar-se ele próprio uma
forma de caricatura.
Carlos Prieto