Fórum Empresarial Brasil
DESTAQUES DA REUNIÃO DE 1 DE SETEMBRO DE
1999
Encontro com os "novos administradores
públicos brasileiros" para conhecer quem são, como pensam
e como atuarão: Emílio Dantas Costa ( Banco Central ), Paulo
Roberto Cunha ( KPMG, ex-Banco Central ) e João Ricardo Motta, assessor
da Câmara dos Deputados para assuntos financeiros e tributários.
Os três são integrantes do Programa
Minerva
Emílio Dantas Costa
Metas de inflação
O Banco Central não pretende mais utilizar a política
de juros para promover equilíbrio no balanço de pagamento.
Ela será utilizada, basicamente, para perseguir as metas inflacionárias.
Se o Banco perceber que um aumento da cotação do
dólar influenciará efetivamente as taxas de inflação,
ele agirá, elevando as taxas de juros, por exemplo. E se detectar
que não há pressões inflacionárias no cenário
brasileiro ele vai continuar a diminuir as taxas. Assim, o fato de o dólar
estar subindo não quer dizer necessariamente que o BC elevará
as taxas de juros.
Autonomia do BC
A partir do Governo FHC o Banco Central tem conseguido tomar
decisões com base em critérios exclusivamente técnicos.
Essa independência operacional precisa agora ser formalizada para
dar segurança quanto ao futuro, aos próximos governos.
Indexação
O sistema de metas não deverá induzir à
indexação. Os índices estabelecidos são muito
baixos, o que torna sem sentido qualquer indexação.
Previsibilidade = estabilidade
O que interessa aos empresários é que haja estabilidade.
É melhor ter certeza das taxas de juros e da inflação
num nível mais elevado do que trabalhar em níveis mais baixos
e altamente instáveis. Isso compromete a capacidade de decisões
seguras no médio e longo prazos. As metas de inflação
combatem, exatamente, a incerteza, a instabilidade.
[[ Fixar metas não traz confiança. Há uma
série de fatores que impedem a confiança do empresariado.
Um deles foi o FHC dizer que não estava aí para administrar
crises.]]
Supervisão bancária e taxas de juros
O Banco Central adota hoje um critério de antecipação
para supervisionar o sistema financeiro. O objetivo é adiantar-se
para impedir crises, conhecendo as variáveis que possam gerar instabilidade
ou vulnerabilidade. As atuais taxas de juros são uma dessas variáveis,
dado que representam um obstáculo para a tomada de capital para
investimentos.
Raízes do spread
Dados da Associação Nacional dos Executivos de
Finanças, Administração e Contabilidade ? ANEFAC mostram
que enquanto a taxa de juros de captação é de 19,5%
ao ano para as instituições financeiras, o empréstimo
pessoal está em torno de 340%, o cartão de crédito
a 286% ao ano, o cheque especial por volta de 280%.
O Banco Central está analisando cada um dos componentes
desse spread para poder agir mais diretamente na sua redução.
Os estudos ficarão prontos em outubro.
A reforma fiscal limitará os gastos do governo ao tamanho
do orçamento, fazendo com que ele pare de ser o grande tomador no
mercado de dinheiro. Enquanto a situação não mudar
as instituições financeiras não terão interesse
em passar dinheiro para o setor produtivo, para os tomadores finais, porque
têm 100% de garantia sobre os empréstimos para o governo,
e com remuneração alta. Os juros não podem diminuir
significativamente enquanto o Congresso não produzir uma reforma
fiscal adequada.
Redução do compulsório
Ainda não se sabe quanto do spread é devido aos
depósitos compulsórios, mas o Banco Central está se
preparando para reduzir o compulsório, já que é uma
medida dentro de sua alçada.
Argentina
Os argentinos pintam o Brasil como grande vilão por ter
feito a desvalorização cambial em janeiro, mas não
é razoável que o Brasil adote um câmbio controlado
por causa dos problemas da Argentina.
Economistas estrangeiros que conhecem muito pouco do Brasil defendem
a criação de um Currency Board e um câmbio fixo. Mas
nós não estamos caminhando nessa direção.
Alexandre Barros (Fórum):
Não há dúvida de que a incerteza na Argentina
vai aumentar o risco na América do Sul. Já está aumentando.
No Chile, a questão do Pinochet é um impasse, todos preferem
que ele morra na Inglaterra. Qualquer outra alternativa é pior.
Especula-se sobre o que acontecerá se a Argentina resolver
apoiar os Estados Unidos e intervir na Colômbia, e o Brasil não.
O medo do Itamaraty é que haja alguma intervenção
na Colômbia e isso rache o Mercosul.
Embora esse ano pareça bem, o mercado internacional já
está preocupado com o ano que vem, com a quantidade de compromissos
brasileiros internacionais que têm que ser negociados em 2000.
Já fizemos quatro pesquisas nos Estados Unidos com grupos
de investidores diretos e constatei que, para eles, o mercado atraente
é o Mercosul como um todo, e não um país específico.
A escolha do país dependerá de uma série de fatores
comparativos dentro do Mercosul.
Outro sinal que capto veio de minhas conversas com o Clube dos
Correspondentes Estrangeiros: os correspondentes entendem muito de economia,
e é sintomático que agora queiram conversar com um cientista
político. Isso indica como se está percebendo lá fora
o aumento da incerteza a respeito do Brasil e do Mercosul.
Paulo Roberto Cunha
Supervisão bancária
O marco fundamental da supervisão bancária foi
a quebra do BCC há alguns anos. Só então se descobriu
que não havia ninguém responsável pelo acompanhamento
global dos bancos multinacionais.
No Brasil, a criação de um sistema eficaz de supervisão
bancária resultou tanto dos critérios exigidos pelo FMI quanto
do fato de que bancos americanos vinham impondo limites restritivos às
operações dos bancos brasileiros. A partir de 96 essa situação
mudou, mas o FMI continua monitorando de perto o sistema de supervisão.
Os bancos brasileiros são, em geral, empresas familiares
integrantes de holdings. Isso requer que a supervisão seja feita
por um grupo de profissionais competentes, com especialistas de todos os
setores da economia e com visão mundial capaz de avaliar tanto cenários
brasileiros quanto os dos países nos quais atuam os bancos.
O fato de integrar uma holding é um elemento complicador
sério, pois os bancos correm risco permanente de contaminação:
em geral, nos bancos que faliram os problemas começaram em uma indústria
ou trading.
Alexandre Barros:
Como consultor, posso perceber que essa questão ganhou
status prioritário para observadores internacionais, pois de um
ano para cá passei a ser periodicamente consultado pelo Departamento
do Tesouro Americano e por órgãos encarregados da fiscalização
dos bancos na América Latina.
João Ricardo Motta
As reformas
Desde 1991 discutimos no Congresso a reforma tributária
para resolver o nó institucional e de eficiência da economia
brasileira. Não foi por falta de teoria e de encaminhamento técnico
que a reforma não aconteceu até hoje!
Previdência
O problema previdenciário continua a ser um dos mais graves
do Brasil. Se a reforma tivesse sido feita no início dos anos 90,
quando Collor a propôs, o déficit da previdência do
setor público federal, que hoje é de 19 bilhões, seria
apenas a metade, pois 48% dos aposentados no setor público se aposentaram
nos últimos 7 anos. O mesmo com o déficit da INSS: no início
do Plano Real a previdência do INSS tinha um superávit de
mais de 3 bilhões, e agora o déficit vai para 11 bilhões.
Reforma fiscal
Reforma fiscal é o conjunto de várias reformas:
tributária, previdenciária, administrativa e, principalmente,
orçamentária. Não podemos conviver com o fato de que,
constitucionalmente, é proibido cortar despesas no Brasil. Com isso,
vários estados têm 80% das receitas disponíveis comprometidas
com o funcionalismo.
Reforma tributária
Um dos pontos mais polêmicos da reforma tributária
trata do poder dos Estados para conceder isenções. ( A introdução
do princípio do destino acabaria com esse problema). O atual sistema
de isenções cria problemas políticos muito sérios.
Apesar das compensações previstas, os estados e
municípios receiam uma mudança incerta, pois é impossível
saber com antecedência como vai funcionar o novo imposto. E, além
disso, sabe-se que vai dar muito trabalho para fiscalizar, e essa é
uma das principais razões para que se perpetue a crença de
que o sistema atual, apesar de tudo, é melhor do que qualquer coisa
que se proponha!
Responsabilidade fiscal
A grande demanda por responsabilidade fiscal tem que vir da
sociedade, cobrando austeridade o tempo todo. O brasileiro ainda não
entendeu que quando um candidato promete 28% de aumento para o funcionalismo
público, quem pagará é a sociedade toda, somos nós.
Inércia política
No sistema politico brasileiro, nenhum presidente teria liderança
suficiente para vencer a força de inércia dos interesses
pontuais que conseguem representação no Congresso. O lema
desses grupos é: ?na dúvida quanto ao futuro, permaneça
como está, pois assim não perderemos o que já conseguimos?.
Alexandre Barros:
Há um outro agravante. Estima-se que 170
deputados federais serão candidatos a prefeitos no ano 2000.
Esse número faz crescer a bancada dos ?opositores naturais? às
reformas vistas como prejudiciais aos interesses dos prefeitos. Ao emperrar
uma reforma hoje, muitos deputados estão preparando a própria
cama, sem a menor preocupação com os interesses da sociedade.
Interesse coletivo versus sub-grupos
Quando não há uma definição clara
do que seja o interesse coletivo, tal como acontece na sociedade brasileira,
prevalecem sempre as racionalidades individuais dos atores políticos.
Quando um sub-grupo se manifesta no Congresso, ele se apresenta como se
fosse a sociedade, como se representasse o interesse social. Está
faltando uma liderança política de estadista que coloque
o interesse coletivo à frente. FHC tenta.
Insatisfação e fórmula Hugo Chavez
O Brasil está suficientemente maduro para não correr
o risco de uma situação Hugo Chavez. Mas uma passeata mobilizando
100 mil ou 50 mil mostra que as pessoas estão insatisfeitas. Brizola
disse que não cabe à oposição propor alternativas,
Lula está encantado com Hugo Chaves. Isso é assustador, pois
parece que o grande projeto político das oposições
é se eleger com o descontentamento e depois tentar virar a
mesa para fazer o que acha certo.
Alexandre Barros:
Na última pesquisa do Termômetro Empresarial que
fizemos entre empresários a taxa de insatisfação com
o governo foi de 80%, enquanto que uma pesquisa global da população
publicada nos jornais tinha dado 59 %. Pensava-se que só os pobres
estavam insatisfeitos... Esses 80% são assustadores. O fato de que
50 mil pessoas saíram de suas casas e resolveram ir até Brasília
deveria preocupar o governo seriamente. Parece que, agora, talvez, finalmente,
a veia de sociólogo de FHC tenha se tocado e se lembrado de que
pesquisa significa alguma coisa. O Presidente realmente precisava descer
do palanque.
Prognósticos sobre a reforma tributária
[[ É fundamental para nós sabermos se vamos ter
uma reforma tributária ainda com FHC, porque ela cortaria mais de
25% dos custos do meu setor. Quando você acha que a reforma acontece?
]]
JRM - Eu não diria que ficaremos no zero, está
havendo pressão para que saia alguma coisa. Vejo a disposição
do governo federal para alterar o sistema de contribuições
sobre o faturamento, que é um dos principais focos de oneração
do setor privado. Haverá um ganho no nível federal, pelo
menos os impostos em cascata devem acabar até o final do governo.
Mas não existe ainda nenhum acordo fechado. Eliseu Resende tem uma
proposta específica para os combustíveis, que não
será em cascata. Minha experiência me mostra que as coisas
estão avançando bem mais do que no passado recente. Essa
comissão está realmente buscando soluções.
[[ Todos nós, do setor privado, queremos a reforma fiscal,
só que cada um quer a sua. Também sabemos que, na passagem
de um sistema ineficiente para um mais eficiente nós perderemos
algo durante algum tempo. Temos medo da transição, por isso
a pressão que o empresariado possa fazer em torno da reforma fiscal
é também uma questão complicada. ]]
[[ Uma pergunta para João Ricardo: Você tem a mesma
confiança que Malan de que o governo vai cumprir com a aprovação
das reformas? ]]
JRM ? Não.
Papel político do empresariado
Maria Lucia de Oliveira ( Fórum ):
O empresariado brasileiro está sendo forçado
a se repensar politicamente como um segmento fundamental da sociedade.
A dificuldade para se elaborar um pensamento que
concilie interesses tão díspares quanto os empresariais não
pode ser um fator de paralisação, como freqüentemente
é. O impasse decorre da percepção de que não
adianta tentar influir sobre o processo decisório no Congresso.
O Fórum tem buscado produzir idéias
sobre processos e práticas políticas democráticas
que nunca fizeram parte da cultura política brasileira. A saída
do impasse estaria na mudança de foco: passar a atuar numa outra
fase do processo democrático, na fase de produção
de idéias e apresentação da alternativas, de discussão
pública entre interesses diferentes.
Caminhos para o Congresso
Uma pergunta para João Ricardo: Como se poderia
dinamizar a discussão no Congresso a respeito de propostas alternativas
para políticas de impacto social global, tal como as reformas? Qual
o caminho para novas idéias chegarem ao Congresso e dinamizar o
processo decisório?
JRM - A representação dos empresários e dos
grupos de interesse no Congresso tem que vir munida de informações
convincentes. No sistema político, quem propõe tem que fazer
uma proposta política perfeita, com os melhores argumentos. Isso
tem um efeito muito maior do que pensa.
Uma pressão sobre o Congresso tem que chegar muito bem
embasada. Quando a informação é precária, insuficiente,
a má fé prevalece. Um projeto mal embasado do governo deixa
uma brecha por onde entra a má fé, desvia-se o foco da questão,
os que apoiavam ficam assustados e recuam.
Desinformação
O problema mais sério da desinformação é
quando colunistas, formadores de opinião, ignoram o que deveriam
saber e continuam simplesmente atacando e contribuindo para criar um clima
de desconfiança.
Eles poderiam ajudar, e muito, a criar o consenso de que a reforma
fiscal é crucial, mostrar a realidade da questão previdenciária,
ajudar a esclarecer a questão das perdas e ganhos. Sem isso, ficamos
à mercê dos desinformados que estão dentro do Congresso
dizendo que reforma fiscal é balela, coisa do FMI.
Alexandre Barros:
É preciso transformar posições
como essas num ônus político para o congressista, e isso só
pode acontecer se a sociedade estiver informada a respeito dessas questões
cruciais.
Reformar para resgatar o futuro
A dívida externa é pouco mais de 40% do PIB. O
estoque não é problemático, mas sim o fluxo, a velocidade
com que ela cresce.
É preciso conhecer as projeções para o comportamento
futuro das contas primárias para poder atuar sobre as variáveis
presentes e viabilizar seu financiamento no futuro.
Estou enfatizando que se se garantir que o futuro pode ser resolvido,
a situação atual melhora muito, cresce a confiança.
Daí, novamente, a importância fundamental das reformas.
Fim de texto
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