Nota: Partes do texto entre ((...)) são perguntas ou comentários
feitos pelos participantes.
As pessoas sempre tendem a pensar que vivem numa época singular, mas o Brasil realmente passa por uma época singular.
Não podemos subestimar o valor do processo de estabilização pelo qual o país passou e ainda está passando e que permitiu oportunidades que eram desconhecidas no passado recente: privatização, desregulamentação, a economia está mais aberta do que jamais esteve desde a segunda guerra mundial e, mais importante ainda, existe a tendência a se tornar mais aberta.
Uma das coisas importantes a examinar agora é o crescimento do PIB per capita no Brasil e em outros países comparáveis.
De 1960 a 1995 Taiwan cresceu quase 9%, a Coréia quase 7%, o Chile cerca de 2,7%. O Brasil teve dois períodos distintos: cresceu cerca de 4.5% ao ano entre 1960 e 1980 e no período de 1980 a 1995 o crescimento foi zero. ( Esses dados estão no estudo recente da McKinsey sobre produtividade no Brasil, do qual fui consultor.)
Se a taxa de 4.5% ao ano tivesse continuado, o PIB teria praticamente dobrado, e o PIB per capita hoje seria igual ao da Coréia.
Os 3 principais problemas que explicam esse baixo crescimento no período 80/95 são a inflação, o baixo grau de abertura para o exterior e o excesso de intervenção do Estado na economia, que se exacerbou a partir da década de 70.
O custo do fechamento para o exterior aparece quando olhamos preços médios dos bens de investimento no Brasil e na Coréia comparados com os Estados Unidos ( tomados como 100 para se ter um parâmetro ).
No começo da década um bem de investimento no Brasil custava quase 80% mais que nos Estados Unidos; hoje, devido ao processo de abertura e a outras variáveis, essa diferença baixou para 40%. Mas na Coréia é 30%.
Já com o preço do trabalho ocorre o contrário: está ficando mais caro no Brasil. Embora uma parte desse acréscimo seja devida a aumento de impostos, ainda assim o salário real aumentou: passou de 18% do preço americano em 1990 para 30% em 97.
Esse aumento do custo do trabalho, junto com a diminuição do custo das máquinas, leva a uma mudança das técnicas que, por sua vez, leva ao aumento de produtividade. E, finalmente, esse processo de mudanças, junto com o aumento dos investimentos em capital físico e capital humano, deverá levar o Brasil a mudar sua situação.
Para isso, é fundamental dar as condições adequadas aos empresários, aos participantes da economia, para fazerem investimentos necessários para o crescimento do país, investimentos em capital físico e humano.
A média das taxas de investimento no Brasil no período 1990-95 foi 20%, enquanto que na Coréia e na China foi cerca de 37%. Nenhum país consegue crescer muito com taxas tão baixas como as do Brasil.
Mas há uma notícia interessante no relatório da McKinsey: o Brasil precisa investir 26% ao ano para crescer 7% ao ano nos próximos 10 anos. Isso é muito menos que os 37% da Coréia. Lá o governo escolheu para crescer indústrias que eram grandes demandantes de investimentos. Tiveram que investir muito em setores nos quais, no Brasil, o básico já está feito, onde já se investiu muito em tecnologia e modernização.
Quem vai decidir quanto se vai investir são grupos de pessoas como vocês, empreendedores, em função das condições da economia.
Feitas todas as contas, considerando a parte do PIB que é importada, a poupança interna e outros fatores, ainda faltariam 5% de poupança para chegar aos 26%.
Esses dados mostram um dos aspectos mais importantes do déficit público. No curto prazo ele afeta a estabilização, mas, no longo prazo, seu impacto mais negativo é sobre a poupança interna. Em 1994 a taxa de poupança interna brasileira era 19%, e hoje é 15%. Como foi que perdemos esses 4 pontos de poupança? Mais de 2/3 disso representa aumento do déficit dos governos.
Todas as experiências de aumento rápido da poupança foram casos em que o governo aumentou sua poupança. A poupança privada tem muito a ver com fatores culturais, é um hábito que muda relativamente devagar, e o Brasil não tem tradição de grande poupança privada.
Uma reforma da previdência poderia ajudar, como no Chile, mas o impacto seria pequeno: foi de 2 a 3% no Chile, que aumentou a poupança de 18% para 30% num período de 10 a 15 anos.
A reforma previdenciária seria uma coisa boa para o Brasil, mas por outras razões: dar uma aposentadoria boa para o trabalhador é bom para a economia, mas não significa que vá aumentar tanto assim a poupança privada. O que é mais importante, hoje em dia, é diminuir a despoupança do governo.
Vejamos agora a questão da educação. Temos uma força de trabalho muito pouco educada em comparação com qualquer país.
Tomemos o estoque de educação, medido pela McKinsey pela mediana de anos de educação da força de trabalho adulta (a mediana mostra que 50% das pessoas de mais de 25 anos que trabalham tem acima de um certo nível de educação e 50% tem menos).
Nos Estados Unidos a mediana é 10 anos, pouco acima de 9 na Coréia, quase 8 na Argentina, pouco acima de 6 no Chile e menos de 4 no Brasil. Se se considerar os trabalhadores com mais de 18 anos o número brasileiro talvez passe para 4 anos, o que é ainda muito baixo.
O que é ainda mais preocupante é o fluxo da educação, ou seja, a percentagem de crianças em idade apropriada que estão na escola secundária.
Isso vai determinar como será a educação de nossos trabalhadores no futuro.
O Brasil tem abaixo de 40% , próximo da Bolívia, enquanto Argentina, Chile, Peru e Cingapura já ultrapassam os 70%, e Uruguai e Coréia estão por volta de 80%.
Esse é um problema grave que já está lançado no futuro. O bom é que, se não podemos fazer nada sobre o número atual, o futuro nós podemos alterar, desde que se mude o sistema educacional e outras variáveis associadas a ele.
Economistas que estudam a questão da educação sabem que a importância da educação está aumentando.
Nos Estados Unidos, por exemplo, quando se compara um trabalhador que terminou os 4 anos da faculdade e um que só terminou a escola secundária, vê-se que, ao longo dos últimos 20 anos, a diferença de salário de um e outro quase que dobrou.
Na Europa, o diferencial de salário não é tão grande, mas o peso da educação aparece quando se estuda o desemprego: a taxa de desemprego é muito mais alta entre os que só têm o secundário.
Nos Estados Unidos, cada ano de educação vale, em média, ao longo da vida do trabalhador, um aumento de 10% no salário.
No Brasil, cada ano de educação vale 16%, pois como há pouca educação, ela vale muito.
Se passássemos de 16% ao ano para 10% nossa desigualdade melhoraria substancialmente. E a única maneira de fazer isso é aumentando o número de pessoas educadas.
Devido à crise macro-econômica pela qual passou o Brasil entre 1980 e 94 (com raízes nos anos 50), os economistas brasileiros ficaram focados só nas questões de déficit, inflação, taxa de câmbio, etc.
Tenho pesquisado outras coisas, procurado saber o que fez outros países crescerem. E vejo que a estabilização não é o único fator, não é suficiente para o crescimento.
A questão da educação é crucial, e no Brasil a situação é pior que em outros casos, por razões históricas.
No livro "Formação Econômica do Brasil", por exemplo, em nenhum momento Celso Furtado menciona a educação. Esse tema não fazia parte do discurso da esquerda brasileira. Em outros países foi diferente.
((E na classe média alta, na classe dos que ocupam cargos e têm poder, a educação tem relativamente pouca importância, pois a correlação entre renda e educação é muito baixa, o básico já vem garantido pelo nascimento, ou pelo trabalho dos pais.))
(( Além disso, Ministérios e Secretarias de Educação nunca são ocupados por pessoas que tivessem resolvido problemas na área de educação; são cargos estritamente políticos, quotas de partidos. ))
Boa parte dos economistas, especialmente os de esquerda, continuam minimizando a importância da educação. Isso não faz parte do discurso político de nenhum partido no Brasil.
Vejamos a questão da produtividade. No estudo da McKinsey, a produtividade da mão de obra brasileira em relação ao benchmark dos Estados Unidos difere muito de indústria para indústria: a siderurgia está perto de 70%, transporte aéreo e telecomunicações por volta de 45%, montadoras e construção residencial por volta de 35%, autopeças 22% e processamento e varejo de alimentos entre 15 e 18%.
Uma consideração importante: historicamente, quase sempre o aumento de produtividade é feito por novas empresas. Em termos tecnológicos, é muito difícil mudar profundamente as técnicas de produção e manter o mesmo estabelecimento.
Outro aspecto da questão da produtividade é a abertura comercial.
Há duas coisas que causam concentração: uma é um Estado forte, e outra é uma economia fechada.
Numa economia fechada, como os insumos vêm de um local só, é importante estar perto das fontes de insumos.
Hoje, a proximidade da fonte deixa de ser tão importante. Por isso o processo de descentralização vai junto com todas as mudanças que estamos vendo no mundo.
Essas mudanças vão resultar num grande número de novos participantes entrando no mercado brasileiro. E isso tem que ser algo muito preocupante para os que estão na parte mais baixa dos gráficos de produtividade.
Do ponto de vista do bem estar da população, a medida da produtividade da mão de obra é muito importante porque ela é, basicamente, o salário que vai ser pago em função do que o trabalhador produzir. E no Brasil ele produz menos do que poderia porque a educação é baixa e por outros fatores.
A economia brasileira não permitia a adoção de técnicas que levam a alta produtividade: o capital era caro, a instabilidade desencorajava investimentos de longo prazo, o fechamento econômico impedia a importação. Tudo isso se reflete na baixa produtividade, e esses números da produtividade da mão de obra são bastante indicativos da situação global.
Os dados sobre emprego por setor mostram que aumentos de produtividade estão concentrados em setores mais dinâmicos da economia que ainda são relativamente pequenos. Siderurgia, transporte aéreo e telecomunicações, que têm as mais altas taxas de produtividade, empregam menos de 400 mil pessoas, enquanto construção residencial emprega mais de 4 milhões e varejo de alimento quase 3 milhões.
Para aumentar o produto, é preciso aumentar a produtividade onde as pessoas estão trabalhando. E ainda temos 30% da população em atividades agrícolas!
Essa questão está sempre presente: se aumentar muito a produtividade, o que acontecerá com o emprego?
Conforme projeção da McKinsey, a situação continuará desigual. As montadoras vão empregar menos gente e produzir muito mais carro. Vão empregar gente mais qualificada, o que talvez até aumente a folha salarial, mas nos próximos 10 anos podemos esperar uma queda de emprego nesse e em vários setores.
Ao mesmo tempo, em outros setores, a elevação da renda global e o aumento de vendas pelo efeito preço no setor vão aumentar emprego: telecomunicações, construção residencial, transporte aéreo, varejo de bancos. Quando houver financiamento de casa própria a juros razoáveis o emprego nos bancos aumentará. Nesses setores, espera-se um aumento médio de emprego de 2% ao ano.
(( Você disse que cabe ao governo dar condições
para que aumente a taxa de investimentos, e também que, embora não
se possa alterar a situação atual da educação,
a situação futura pode ser alterada. O que, exatamente, poderia
ser feito pelo governo e pela sociedade nesses dois casos?
- Para se ter uma taxa de investimentos elevada será preciso
aumentar a poupança interna. O Brasil aprendeu, com a crise de outubro,
que o capital externo tem um custo muito variável e pode custar
caro. Uma coisa a fazer é cortar o déficit público
e parar de ser tão demandante de poupança.
Além disso, é preciso mudar a maneira como o governo gasta dinheiro, gastando melhor o que aloca para educação. O Brasil não gasta pouco, mas gasta mal. Produz poucas pessoas com educação secundária e subsidia fortemente a educação universitária. E o curso secundário não prepara ninguém para entrar no mercado de trabalho, exceto os poucos e disputados cursos técnicos.
A Coréia teve um crescimento formidável em educação. Em 1960 ela tinha a mesma distribuição que tinha o Brasil e hoje tem números como os europeus e americanos.
O financiamento desse processo foi feito, em grande parte, pelas famílias. A experiência de Brasília, dando incentivo às famílias para que mantenham os filhos na escola, é interessante, mas o impacto seria muito maior se se mudasse o sistema para tornar a educação do primeiro e do segundo graus mais produtiva.
O governo precisa financiar educação por causa das externalidades, pois é um mecanismo de redistribuição de renda, mas se houver condições que mostrem que a educação vai ser valorizada as famílias investirão muito mais.
É preciso lembrar sempre que a educação é algo que tem que ser relativamente concentrado.
Não há nenhuma razão para se ter faculdades espalhadas pelo país. Isso ilustra o ponto de como o governo tem que fazer menos, mesmo em áreas como a educação. Todas as experiências descentralizadoras [em quaisquer países] na área da educação [superior] foram grandes desastres.
Se houver a chance de as pessoas optarem pelo ensino técnico, grande parte do problema estará resolvido, pois uma grande parte da população, de início, optará por ele.
((Para aumentar a taxa de investimento, é preciso que o governo
despoupe menos, que se faça um ajuste fiscal forte. Quais os países
que conseguiram fazer uma mudança drástica nesse aspecto
sem comprometer a estabilidade política?))
- Há vários: Israel, Itália e Espanha são
bons exemplos. A Argentina está conseguindo, o México também.
Depende de pessoas como vocês e de outros formadores de opiniões,
de pessoas que mostrem a necessidade e a viabilidade da idéia. Há
uma parte do governo que está convencida de que isso é necessário.
Não estou dizendo que vai acontecer, mas sim que é possível
fazer.
(( E como um governo estadual pode ajudar o Brasil a ter uma melhor
estrutura de logística?))
- Eu acho que, principalmente, saindo da frente. A melhor coisa que
se pode fazer pelas comunicações é privatizar, tirar
das mãos do Estado. Nos Estados Unidos, uma grande parte do sistema
de comunicação ainda é analógico, mas no Brasil
estamos começando quase do zero já com o sistema [quase]
todo digital. Conseqüentemente, a privatização vai aumentar
muito a produtividade no setor.
O Brasil está fazendo uma experiência interessante nos transportes: ele tem hoje uma percentagem muito maior da malha rodoviária privatizada do que qualquer país que eu conheça. A privatização das ferrovias também vai ser um processo importantíssimo, desfazendo o predomínio do sistema rodoviário. Não há a mínima razão para o Estado estar gerenciando ferrovias. Seria possível privatizar os portos e rapidamente alcançar, com facilidade, altos níveis de produtividade também.
(( Há alguns fatores que são limitativos de todas essas mudanças desejadas. Um deles é a crença de que o Estado é um melhor alocador de recursos do que o mercado. Há políticos que enxergam telecomunicações não como um fator decisivo para a economia e o crescimento do país, mas unicamente como recurso político próprio, pessoal, que eles administram e distribuem segundo seus interesses eleitorais [oferecendo linhas telefônicas em troca de votos]. Para esses, a expansão e privatização das telecomunicações ameaça seus interesses diretos e imediatos, e por isso eles criarão todo tipo de dificuldades [para a privatização e para a retirada da autoridade do Estado de alocar tais recursos .))
O sistema de corrupção também tem limites, e o Brasil está chegando a ele: os corruptos devem estar calculando que, se impedirem as mudanças, vão acabar ficando de fora e perdendo a possibilidade de ganhar qualquer coisa.
(( Qual a tendência de longo prazo depois das eleições:
desregulamentação ou a social democracia continuando a ver
o Estado como principal agente? ))
- (Alexandre Barros): - A privatização foi razoavelmente
fácil no Brasil porque a constituency era concentrada e tinha muito
a ganhar com o esforço: bancos, casas de investimentos, etc. Mas
a constituency da desregulamentação é muito dispersa,
por isso o processo deverá ser lento. O importante será ter
alguém dentro do governo que acredite na importância disso,
e não há ninguém explicitamente, pelo menos, com essa
postura, ninguém que diga: "é fundamental desregulamentar
para que os pobres possam ganhar dinheiro e ter chances de melhorar de
vida."
- (Scheinkman): - Acho que é isso mesmo. A única coisa positiva nesse campo é que algumas constituencies específicas vão surgindo na medida que o processo de desregulamentação se aprofunda. Trata-se de ver se elas vão ter peso suficiente para se opor a essa tendência do governo. Já existem alguns grupos econômicos razoavelmente concentrados que sabem que se beneficiariam da desregulamentação de certos setores. Esses grupos terão que ser cada vez mais explícitos em sua demanda por desregulamentação, como está acontecendo com os portos.
(( Esse tema tem sido recorrente no Fórum. Foi visto na última
reunião, quando se discutiram novas abordagens para a reestruturação
empresarial, e será uma parte importante do Projeto Brasil 2025
(que vai ser desenvolvido pela Early Warning) : como fazer o trânsito
para o futuro, como criar futuros alternativos favoráveis. Quais
os mecanismos internos que uma empresa tem que ter para garantir sua capacidade
de inovação e de renovação permanente, de modo
a enfrentar as novas? ))
- Há várias respostas. A empresa tem que buscar técnicas
novas, olhar o que os concorrentes estão fazendo, o que as novas
estão fazendo, estar permanentemente se comparando com as outras
( benchmarking). O que tem tido sucesso em muitas empresas é a horizontalização
do processo de renovação, que não fica restrito ao
time de managers. Parecido com o que fazem os japoneses.
(( Nossa experiência mostra que a empresa tem que ter técnicas gerenciais e managers propensos à inovação, propensos a matar seu próprio produto antes que outros o façam; e tem que ter acesso a novas tecnologias e inovação. Uma grande desvantagem das empresas instaladas é o layout industrial que já existe, talvez em regiões em que os custos tenham crescido mais que em outras.
(( O espírito de renovação tem que vir de cima
para baixo.))
- Sim, mas de baixo para cima vêm as idéias. As pessoas
que estão abaixo têm que saber que as de cima estão
abertas. Isso não é nada trivial, porque a maioria das empresas
não faz isso, não permite que pessoas que não estejam
num nível muito alto sequer comuniquem uma idéia nova.
- Um último comentário: eu disse no início que
tinha trazido dados e que estava preparado para responder a qualquer pergunta
sobre a atual conjuntura. Fiquei muito impressionado por ver que ninguém
perguntou nada disso, vocês estão pensando nas coisas de mais
longo prazo, nas que são efetivamente mais importantes para o país.
Foi muito bom constatar isso aqui.